
A morte de Orelha, cão comunitário cuidado por moradores da Praia Brava, em Florianópolis (SC), segue sob investigação da Polícia Civil e ganhou novos detalhes após reportagem exibida pelo Fantástico neste domingo (1). O programa teve acesso ao depoimento de um porteiro que relatou conflitos com adolescentes da região, afirmou ter ouvido relatos de agressões a cachorros na mesma noite das brigas e disse ter sido alvo de xingamentos como “porteiro de merda” e “assalariado”.
Em um áudio enviado a um grupo de mensagens após uma discussão, o porteiro afirmou: “Na mesma noite que eles arranjaram confusão comigo, eles, parece, que deram umas pauladas em um cachorro… É seis folgados.” Apesar disso, ao ser questionado especificamente sobre a morte de Orelha, ele disse não ter presenciado a agressão: “Eu não posso acusar que foram eles… se eu tivesse visto batendo no cachorro, eu diria que eram eles.”
Segundo a investigação, desde o início do verão o porteiro vinha tendo atritos com adolescentes por causa de bagunça, depredação, xingamentos e desrespeito a horários do condomínio. Ele relatou à polícia que gravou vídeos dos jovens danificando lixeiras durante a madrugada e que, durante as discussões, era insultado com termos como “porteiro de merda”, “assalariado”, “velho” e “barrigudo”.
Fantástico exibe áudio que porteiro mandou no grupo: “Parece que eles deram umas pauladas nuns cachorros”.
O porteiro diz que foi muito xingado por eles, por palavras como “porteiro de merda” e “ASSALARIADO”. #orelhanofantastico pic.twitter.com/G33eBP3Ssu— insta: @kaarolzx (@kaarolzx) February 1, 2026
O caso Orelha mobilizou o país no começo de janeiro, quando o animal foi encontrado gravemente ferido em uma área de mata. Levado para atendimento veterinário, não resistiu. O veterinário Derli Royer afirmou que o cão chegou com “lesões na cabeça, no olho, principalmente no lado esquerdo, e desidratado, sem quase nenhum movimento” e descartou a hipótese de acidente. “Agressão. (…) Descarto um acidente”, afirmou.
A Polícia Civil apura o envolvimento de ao menos quatro adolescentes suspeitos de agressões e tortura contra o animal. A delegada Mardjoli Valcareggi, da Proteção Animal, disse que ainda não há imagens ou testemunhas do momento exato da agressão e que o desafio da investigação é “juntarmos as peças do quebra-cabeça”.
O inquérito também investiga suspeitas de coação de testemunhas. Após saberem das discussões e de que dois adolescentes haviam sido fotografados, pais de dois deles e o tio de um foram até a portaria do condomínio. Segundo a delegada, uma das pessoas apresentava “volume na região da cintura”, o que levou vítima e testemunhas a suporem que poderia haver uma arma, mas nada foi encontrado após mandado de busca. O porteiro registrou boletim de ocorrência por ameaça, enquanto familiares dos adolescentes também fizeram B.O. após a foto circular na internet.
Na segunda-feira (26), a polícia cumpriu mandados de busca e apreensão em casas de adolescentes apontados como suspeitos e em endereços ligados a responsáveis, além de adotar medidas contra três adultos investigados por possível coação. Celulares e dispositivos eletrônicos foram apreendidos para análise. Dois dos adolescentes estavam nos Estados Unidos, em viagem programada antes do crime, e devem ser ouvidos após o retorno, conforme orientação do Ministério Público de Santa Catarina.
Em nota assinada pelo advogado Marcos Vinícius de Assis dos Santos, atribuída à defesa do porteiro, é afirmado que o trabalhador foi coagido por parentes dos envolvidos e que “jamais houve, por parte do porteiro, qualquer filmagem do ocorrido”. A manifestação acrescenta que ele vem sofrendo constrangimentos no trabalho, incluindo intimidações, xingamentos reiterados por adolescentes — como “porteiro de merda” e “assalariado” — e “imposição compulsória de férias, sem prévio aviso legal”. A defesa sustenta ainda que o funcionário, com mais de 13 anos de atuação sem intercorrências, estaria sendo colocado de forma indevida como “testemunha ocular de um fato não presenciado”.
Um dos pais dos adolescentes afirmou ao Fantástico: “Se ele fez alguma coisa e ficar provado, ele tem que responder. Mas tem que ser provado… até agora só foram acusações.”