
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
A revelação de que o Banco Master realizou R$ 2,8 bilhões em operações de câmbio para uma empresa investigada por lavar dinheiro para o PCC é um retrato do que acontece quando parte do sistema financeiro acha que o Brasil vive sob o caos de um programa de auditório dominical e decide operar no modo “topa tudo por dinheiro”. Alguns na Faria Lima insistem em tratar isso como ousadia empreendedora, o que frequentemente acaba se confundindo com negligência deliberada.
Segundo investigação da Polícia Federal, a One World Services (OWS), empresa de criptoativos apontada como intermediária de operações ligadas ao PCC e até de transações sob suspeita de conexão com o Hezbollah, usou contas no então Banco Máxima (rebatizado depois como Master) para compras bilionárias de bitcoins destinadas a condenados por lavagem de dinheiro para o crime organizado.
A PF afirma que o banco descumpriu regras básicas de compliance de forma proposital, aceitando justificativas frágeis para as operações, deixando de exigir documentação obrigatória e fechando os olhos para inconsistências grosseiras. No português de boteco: preferiu não perguntar demais para não perder o cliente.
Nada disso é exatamente novidade para quem acompanha a trajetória recente do Master e de seu controlador, Daniel Vorcaro. Cavalgando relações políticas com os Três Poderes, a instituição vendia terrenos na Lua em forma de CDBs e queimou fundos de previdência de servidores públicos por meio de suas letras financeiras.
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O problema não é apenas o banco em si, mas o ambiente que normaliza esse tipo de conduta. E aqui falo não apenas da política e da Justiça, mas de um ecossistema em que “inovação” vira sinônimo de driblar controles e “desburocratização” serve como álibi para afrouxar a vigilância sobre fluxos bilionários.
O caso também expõe outra perversidade recorrente: quando o dinheiro sujo circula de terno e gravata, parte do mercado finge não reconhecer o cheiro. Bancos e instituições mais responsáveis rompem relações com empresas ao perceber inconsistências ou sequer aceitam fechar negócios — não porque são bonzinhos, mas porque sabem o BO que isso traz. Para muita gente, contudo, o risco sistêmico e até criminal parecem aceitáveis, desde que rendam gorda comissão. Ou, pior: esses riscos deixam de existir diante da percepção de que gente rica com amigo$ não vai presa.
Há quem tente reduzir o episódio a um problema técnico ou a uma falha pontual de compliance já resolvida em acordo administrativo com o Banco Central. É uma leitura conveniente, mas perigosa. Porque ignora o padrão. E porque reforça a ideia de que, no Brasil, crimes financeiros só são realmente punidos quando cometidos por quem não frequenta os eventos, jantares e seminários corretos.
No fim das contas, o elo entre PCC e Master não é apenas um escândalo policial. É um alerta institucional. Mostra o risco de um sistema financeiro que, embalado pela lógica do lucro a qualquer custo, faz a egípcia enquanto discursa sobre eficiência, meritocracia e modernidade.
Quando a Faria Lima decide que vale tudo, alguém sempre paga a conta. E raramente é quem assinou os contratos.