Quem é Apolo Carvalho, bolsonarista fujão que enganou Itamaraty e a PF

Atualizado em 2 de fevereiro de 2026 às 11:08
O bolsonarista Apolo Carvalho da Silva. Foto: Reprodução

O bolsonarista Apolo Carvalho da Silva conseguiu enganar a Polícia Federal e o Itamaraty, obteve um novo passaporte mesmo com mandado de prisão em aberto e deixou o país rumo à Europa. Réu pelos atos golpistas de 8 de Janeiro, ele aparece em vídeos dentro das invasões aos Três Poderes e é foragido da Justiça brasileira.

Apolo tem 28 anos e responde por incitação ao crime e associação criminosa no âmbito dos ataques de 8 de Janeiro de 2023. Ele foi identificado pela Polícia Federal dentro das sedes invadidas em Brasília a partir de vídeos encontrados em seu próprio celular e analisados por perícia.

As imagens mostram o arte-finalista usando boné branco, máscara improvisada com a bandeira do Brasil e camiseta azul enquanto circulava pelos prédios públicos depredados. Em alguns registros, segundo laudo do perito Jorge Ricardo Oliveira, “é possível ouvir frases como ‘tá invadido’, ‘tudo nosso’, ‘é nosso’ e ‘tudo invadido’”.

Apesar disso, Apolo foi preso apenas no dia seguinte, no acampamento montado em frente ao quartel-general do Exército. Essa circunstância impediu que ele fosse denunciado por crimes mais graves, como golpe de Estado, dano ao patrimônio e abolição violenta do Estado democrático de Direito.

Medidas judiciais e descumprimento

Após a prisão, Apolo passou a cumprir medidas cautelares determinadas pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Ele foi obrigado a usar tornozeleira eletrônica, permanecer em casa, não deixar o país e entregar o passaporte.

A decisão também determinava que a Polícia Federal e o Itamaraty tomassem “todas as providências necessárias para obstar a emissão de quaisquer outros passaportes em nome do investigado”. O documento foi entregue em 18 de setembro de 2023 à Vara de Execuções Criminais de Uberaba (MG).

Em 10 de junho de 2024, porém, Apolo rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu do Brasil com destino à Argentina. Em setembro daquele ano, foi expedido um mandado de prisão contra ele.

Mandado de prisão está em aberto desde 2024
Mandado de prisão do bolsonarista Apolo Carvalho da Silva está em aberto desde 2024. Foto: Reprodução

Rota de fugas pela América Latina

Após deixar o país, Apolo se juntou a outros investigados pelos ataques aos Três Poderes que haviam se refugiado na Argentina. Meses depois, participou de nova fuga, passando por Peru e Colômbia. O grupo seguiu então para o México, e alguns integrantes conseguiram chegar aos Estados Unidos, onde acabaram presos.

Apolo permaneceu no México entre janeiro e dezembro do ano passado, estabelecendo-se no estado de Querétaro, a cerca de 200 km da Cidade do México, onde trabalhava como mecânico. Foi a partir dali que ele articulou sua terceira fuga.

Em 2 de setembro de 2025, Apolo foi à Cidade do México e registrou um boletim de ocorrência no qual afirmou ter “perdido” o passaporte. “Perdi meu passaporte no centro da Cidade do México. Eu me dei conta da falta do documento ao chegar ao hotel”, declarou. “Estava no México como turista.”

Com o boletim em mãos, ele reuniu a documentação exigida pelo consulado brasileiro: carteira de motorista original, segunda via da certidão de nascimento obtida pela internet, título eleitoral digital, comprovante de pagamento de multas por não ter votado nas eleições de 2024 e o número do CPF. Também informou um endereço falso para evitar ser localizado.

Mesmo com mandado de prisão em aberto e ordens judiciais expressas para impedir a emissão de documentos, nenhuma dessas informações foi verificada pelos funcionários do consulado brasileiro no México.

Passaporte emitido e falha reconhecida

O novo passaporte foi emitido em 29 de setembro e assinado pelo vice-cônsul Gustavo Alexandre Magalhães, com a justificativa de ter sido “concedido em substituição a passaporte extraviado”. O consulado funciona na Cidade do México, onde também operam a Embaixada do Brasil e dois representantes da Polícia Federal, um delegado e um agente.

Passaporte novo foi expedido por consulado no México em 2025
Passaporte novo do bolsonarista foi expedido por consulado no México em 2025. Foto: Reprodução/UOL

Ainda assim, ninguém identificou que Apolo era foragido da Justiça. O próprio Itamaraty reconheceu que houve “falha” e “concessão indevida de passaporte comum”. O documento só foi cancelado em 29 de janeiro. Em nota, o ministério afirmou que iniciou uma revisão das práticas de emissão de documentos de viagem “para evitar equívocos como o que lamentavelmente ocorreu no México”.

Após conseguir o passaporte, Apolo permaneceu no México por mais algum tempo, levantando dinheiro para comprar a passagem aérea. Em dezembro, embarcou para a Espanha, onde foi recebido por Oswaldo Eustáquio, apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Já em território espanhol, procurou a polícia em Almería, a cerca de 540 km de Madri, e formalizou o pedido de “proteção internacional”. Ele vive atualmente na capital espanhola e deverá se apresentar no dia 16 de abril à brigada da Direção Geral da Polícia para a primeira audiência do processo.

Defesa aposta em asilo político

Apolo é representado pelo advogado Fábio Pagnozzi, defensor da ex-deputada Carla Zambelli, que também está foragida e foi presa na Itália. A expectativa da defesa é repetir o desfecho obtido por Oswaldo Eustáquio, que conseguiu proteção na Espanha e não foi extraditado.

“A Espanha se mostrou muito receptiva às pessoas do 8 de Janeiro”, afirmou Pagnozzi. Segundo ele, o pedido equivale a asilo político e se baseia na alegação de “perseguição política” contra opositores no Brasil.

Em janeiro de 2024, Apolo recusou um acordo com o Ministério Público que encerraria o processo mediante confissão, pagamento de multa de R$ 20 mil, prestação de serviços comunitários e participação em um curso sobre democracia. A defesa sustenta que as acusações são genéricas.

Segundo Pagnozzi, o arte-finalista também teme que, ao retornar ao Brasil, o Ministério Público utilize a perícia da Polícia Federal em seu celular para pedir o agravamento da pena, incluindo acusações de golpe de Estado e dano ao patrimônio.