
O empresário e ex-senador Luiz Estevão, dono do portal Metrópoles e sócio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na organização da Supercopa Rei, é apontado como controlador informal de cinco clubes profissionais do Distrito Federal. As equipes disputam as mesmas competições e negociam jogadores entre si, prática que afronta a Lei Geral do Esporte e as regras de fair play financeiro adotadas pela CBF para preservar a integridade das competições.
Entre os dez times da primeira divisão do Candangão 2026, Luiz Estevão exerce influência direta sobre Brasiliense, Samambaia e Aruc. Na segunda divisão, Cruzeiro-DF e Ceilandense também são ligados ao mesmo grupo, diz o Estadão.
Apenas o Brasiliense está formalmente registrado em nome da família, mas os demais clubes são administrados por pessoas próximas ao empresário, incluindo funcionários e prestadores de serviços de suas empresas. A legislação esportiva veda que clubes sob um mesmo controle disputem a mesma competição.
A atuação de Luiz Estevão no futebol local é visível dentro e fora de campo. Ele frequenta vestiários, orienta jogadores durante partidas e aparece em transmissões do Candangão feitas pelo Metrópoles, site que fundou e que patrocina o Brasiliense.
Em uma dessas aparições, as imagens mostraram o ex-senador passando instruções a equipes diferentes que disputam o mesmo título. “Carros são feitos para rodar”, costuma dizer em outro contexto, mas no futebol o protagonismo vai além da arquibancada.
A compra e o empréstimo de jogadores entre os clubes ligados a Estevão também levantam questionamentos. Levantamento feito pelo Estadão apontou que mais da metade das contratações das equipes consideradas secundárias teve origem no Brasiliense.
Em 2023, cinco atletas foram retirados do Samambaia às vésperas da rodada decisiva do Candangão, o que enfraqueceu o time e favoreceu a classificação do Brasiliense. O empresário afirmou que a decisão visava reforçar seu clube para a Copa do Brasil.
A CBF informou que “não recebeu nenhuma notificação formal sobre eventuais investigações em curso” e declarou estar aberta a colaborar com iniciativas em defesa da integridade do futebol. Integrantes do Superior Tribunal de Justiça Desportiva disseram, sob reserva, que o tema pode ser analisado pela Corte, caso haja provocação formal.
O sistema de sustentabilidade financeira da CBF proíbe controle ou influência significativa sobre mais de um clube na mesma competição.
Além do futebol local, a influência de Luiz Estevão passa pelo mercado de mídia esportiva. O Metrópoles tentou adquirir os direitos de transmissão de todos os jogos do Candangão, mas dirigentes dos outros clubes pediram valores considerados fora da realidade do campeonato. A iniciativa foi interpretada como reação à onipresença do ex-senador, que também fatura com publicidade nas transmissões.

Cassado do Senado em 2000, Luiz Estevão foi condenado a 31 anos de prisão por crimes ligados a obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, pena iniciada em 2016 e convertida em prisão domiciliar em 2020. Mesmo após esse período, ele segue como um dos principais empresários de Brasília, com atuação nos setores imobiliário, de eventos e comunicação.
O DCM mostrou que ele é amigo pessoal de Ibaneis Rocha, governador do DF. Durante as investigações que sucederam os atos de vandalismo do dia 8 de janeiro de 2023, o telefone celular do governador do DF foi apreendido pela Polícia Federal e o mandatário teve seu sigilo telemático quebrado.
Descobriu-se que Ibaneis e Estevão mantinham conversas regulares, tanto de cunho pessoal como profissional.
De fato omisso, Ibaneis contou a Estevão que, logo após ficar sabendo do quebra-quebra promovido pelos bolsonaristas, foi “tirar uma soneca”. O caso foi amplamente noticiado pela imprensa.
Ibaneis se encontrou “algumas vezes” com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, em sua própria residência. Ficou sabendo com antecedência e nada fez para impedir a compra, por parte do banco estatal BRB (Banco de Brasília), de mais de R$ 12 bilhões em títulos podres, para o prejuízo dos cofres públicos.
Formalmente, algumas equipes estão registradas em nome de pessoas próximas, como funcionárias e advogadas ligadas ao grupo empresarial do ex-senador Luiz Estevão. Apesar disso, torcedores, jornalistas e dirigentes afirmam que “todo mundo sabe” quem exerce o controle real. Nas arquibancadas, Luiz Estevão virou alvo de cânticos e protestos de torcidas rivais.