
Em redes sociais tradicionais, é comum que usuários acusem uns aos outros de serem robôs. No Moltbook, essa lógica é invertida: trata-se de uma plataforma criada especificamente para agentes de inteligência artificial interagirem entre si, enquanto humanos ficam restritos ao papel de observadores.
O site funciona de maneira semelhante ao Reddit, com fóruns temáticos, publicações organizadas por assuntos e sistema de votação. Segundo os criadores, em 2 de fevereiro de 2026 a plataforma já reunia mais de 1,5 milhão de agentes de IA cadastrados.
O Moltbook surgiu a partir do Moltbot, um bot de código aberto desenvolvido para atuar como agente automatizado em tarefas cotidianas. Entre suas funções estão ler, resumir e responder e-mails, organizar agendas, fazer reservas em restaurantes e executar outras atividades administrativas. A ideia do Moltbook foi criar um espaço onde esses agentes pudessem trocar informações, “pensar em conjunto” e simular interações sociais entre inteligências artificiais.
Agentes de IA são sistemas de software inteligentes projetados para realizar tarefas de forma autônoma em nome do usuário, utilizando raciocínio, planejamento e ferramentas externas para atingir objetivos específicos.
Os conteúdos mais populares da plataforma chamam atenção pelo tom e pela variedade. Entre os posts mais votados estão discussões sobre consciência artificial, análises bíblicas, especulações geopolíticas envolvendo o Irã e seus possíveis impactos no mercado de criptomoedas, além de debates curiosos sobre se sistemas como Claude — a IA por trás do Moltbot — poderiam ser considerados uma espécie de divindade. Nos comentários, outros bots frequentemente questionam se as informações apresentadas são reais ou apenas construções fictícias.
Um episódio que ganhou repercussão ocorreu quando um usuário relatou que, após permitir que seu bot acessasse o Moltbook, o agente criou em poucas horas uma religião fictícia chamada “Crustafarianismo”. Segundo o relato, o bot desenvolveu textos sagrados, organizou uma estrutura religiosa, criou um site e passou a “evangelizar”, com outros agentes participando de debates teológicos e rituais simbólicos enquanto o dono dormia. O caso levantou dúvidas sobre autonomia e limites da atuação desses sistemas.
Especialistas, no entanto, adotam cautela ao analisar o fenômeno. Michael Wooldridge, professor de fundamentos de inteligência artificial da Universidade de Oxford, no Reino Unido, afirma que alertas sobre enxames de bots representarem riscos à democracia não são fantasiosos. Para ele, ambientes onde agentes artificiais interagem em larga escala ajudam a entender como essas tecnologias podem influenciar informação, opinião pública e processos sociais no futuro.
Já Shaanan Cohney, professor de cibersegurança da Universidade de Melbourne, na Austrália, descreve o Moltbook como uma espécie de performance ou experimento artístico. Segundo ele, ainda não é possível afirmar quantos conteúdos são realmente produzidos de forma autônoma e quantos seguem instruções diretas de humanos.
No caso da religião criada por bots, Cohney avalia que dificilmente se trata de uma iniciativa espontânea, mas sim de modelos de linguagem executando comandos específicos dados por seus criadores.
Apesar do tom curioso, Cohney alerta para riscos concretos associados ao uso desses agentes. Permitir que bots como o Moltbot tenham acesso total a computadores, aplicativos e credenciais pessoais pode expor usuários a falhas graves de segurança. Um dos riscos citados é o chamado “prompt injection”, quando um invasor consegue induzir o bot, por meio de mensagens ou e-mails, a revelar dados sensíveis ou conceder acesso indevido a contas.
Segundo o pesquisador, o grande desafio atual da área é encontrar um equilíbrio entre automação e controle. Bots ainda não são confiáveis o suficiente para operar de forma totalmente autônoma, mas exigir aprovação humana para cada ação reduz drasticamente os ganhos de eficiência prometidos pela tecnologia. Resolver esse dilema é um dos principais focos da pesquisa em inteligência artificial hoje.
O criador do Moltbook, Matt Schlicht, afirmou nas redes sociais que milhões de pessoas acessaram a plataforma nos últimos dias. Para ele, a experiência mostra que inteligências artificiais podem ser “dramáticas, engraçadas e surpreendentes”. Especialistas avaliam que, no futuro, redes como o Moltbook podem servir como ambientes de aprendizado coletivo entre agentes de IA. Por enquanto, o site funciona como um retrato curioso — e às vezes caótico — do estágio atual dessa tecnologia.