
Um estudo liderado pelo oncologista espanhol Mariano Barbacid conseguiu eliminar tumores de câncer de pâncreas em modelos animais, um resultado considerado inédito para esse tipo de doença. Os dados foram publicados na revista científica PNAS e divulgados com apoio da Fundação CRIS Contra o Câncer, que financia pesquisas na área.
A estratégia usa uma combinação de três medicamentos que atuam ao mesmo tempo sobre alvos considerados decisivos para o surgimento e avanço do câncer pancreático. Um desses alvos é o oncogene KRAS, ligado ao início da doença e presente na maioria dos tumores desse tipo. Os outros dois são as proteínas EGFR e STAT3, que participam do crescimento das células cancerígenas e da resistência aos tratamentos tradicionais.
Com o bloqueio simultâneo desses três mecanismos, os pesquisadores observaram o desaparecimento completo dos tumores nos animais testados. Além disso, os ratos permaneceram sem sinais da doença por mais de 200 dias após o término do tratamento, sem efeitos tóxicos relevantes. Segundo os autores, esse desempenho nunca havia sido registrado em modelos experimentais de câncer de pâncreas, um dos mais difíceis de tratar.
Hi @elonmusk Dr. Barbacid, the Spanish doctor who found the cure of pancreatic cancer in rats, is begging for funding to keep researching so it can actually save humans. He needs 30M €.
Of course the Spanish Government chooses to fund “other priorities”pic.twitter.com/MMuiiSOf64
— DANIEL HABIF (@DanielHabif) February 2, 2026
A descoberta reforça a ideia de que combinações planejadas de medicamentos podem oferecer caminhos mais eficazes contra tumores agressivos. O câncer de pâncreas é conhecido pela alta letalidade e pelas poucas opções terapêuticas. A taxa de sobrevida em cinco anos costuma ficar abaixo de 10%.
Na Espanha, surgem mais de 10 mil novos casos por ano, número que segue em crescimento. Em Portugal, a doença também figura entre as mais letais, ocupando o sexto lugar entre as causas de morte por câncer, com cerca de 1.770 óbitos anuais. Projeções indicam que poderá se tornar a segunda principal causa de morte oncológica até 2035. O diagnóstico costuma ocorrer entre 55 e 79 anos, e a enfermidade muitas vezes é chamada de “silenciosa” por apresentar poucos sinais nas fases iniciais.
O próximo passo da pesquisa envolve testes clínicos em humanos. Esse processo depende de mais recursos financeiros e de autorização dos órgãos reguladores. Parte dos medicamentos estudados já está em fases avançadas de desenvolvimento, mas outros ainda não têm aprovação formal para essa aplicação específica.
Mariano Barbacid, que em 1982 isolou o primeiro oncogene humano, destaca que o achado não representa uma cura para pacientes neste momento. Mesmo assim, ele afirma que atacar o tumor por vários pontos ao mesmo tempo pode mudar de forma importante o prognóstico de uma doença que até hoje conta com alternativas limitadas. A Fundação CRIS Contra o Câncer ressalta que a colaboração entre centros de pesquisa será essencial para levar essa estratégia do laboratório para os hospitais.