BC deu aval para Vorcaro se tornar banqueiro enquanto PF o investigava

Atualizado em 3 de fevereiro de 2026 às 10:21
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: Reprodução

Daniel Vorcaro recebeu autorização do Banco Central para se tornar banqueiro e assumir o controle do Banco Master enquanto era investigado pela Polícia Federal (PF) por suspeitas de envolvimento em esquemas de desvio de dinheiro público e gestão fraudulenta. Com informações do Estadão.

À época, ele estava na mira da PF e do Ministério Público Federal, mas, ainda assim, teve aval da autoridade monetária para se tornar sócio controlador do então Banco Máxima, rebatizado de Master em 2021.

Em depoimento à Polícia Federal, em 30 de dezembro, Vorcaro afirmou que “até mesmo o Wilker, que pelo que eu entendi tá desde 2019 tentando me pegar de alguma forma…”, deveria olhar para o negócio “por um outro prisma”. A fala se referia a Wilker Goulart, agente da PF que atuou nas investigações da Operação Fundo Fake, deflagrada em 2020, durante a pandemia.

Naquele momento, Vorcaro era investigado por suspeitas de participação em esquema envolvendo desvio de recursos públicos, gestão fraudulenta, corrupção e outros crimes ligados a fundos de previdência públicos municipais. As apurações envolviam o Banco Máxima — que posteriormente daria origem ao Banco Master — e fundos ligados a Vorcaro e a pessoas próximas.

Autorização do BC apesar das apurações

Mesmo sob investigação da PF e do MPF, Vorcaro recebeu autorização do Banco Central para se tornar sócio controlador do Máxima. Outro sócio da instituição, Maurício Quadrado, também era investigado pela PF, mas por corrupção, no contexto de um acordo de delação premiada.

A legislação determina que qualquer acionista com participação qualificada ou influência na gestão de uma instituição financeira passe por verificação de idoneidade moral, reputação ilibada, capacidade técnica e origem do patrimônio antes de obter aval do BC. Quando Vorcaro foi aprovado como sócio do banco, a autoridade monetária era presidida por Roberto Campos Neto.

Mesmo com investigações em andamento e com rumores crescentes sobre a solidez do Banco Master, entre 2019 e 2024 o Banco Central autorizou Vorcaro a adquirir diversas instituições financeiras e de pagamento, como Voiter, Willbank e Letsbank.

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Roberto Campos Neto, bolsonarista que presidiu o Banco Central até 2025. Foto: reprodução

Defesa e decisões judiciais

Procurada, a defesa de Vorcaro afirmou que ele foi “formalmente excluído da investigação” porque “ainda não havia adquirido o controle do Banco Máxima e não mantinha vínculo com a instituição”, acrescentando que “qualquer tentativa de associar seu nome aos fatos é falsa e difamatória”.

Em 2021, decisão da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, impediu que Vorcaro fosse denunciado criminalmente nesse caso. Em 2023, houve o trancamento do inquérito policial da Operação Fundo Fake, também por decisão do TRF da 1ª Região.

A autorização do Banco Central para que se tornasse banqueiro ocorreu antes do encerramento do inquérito. Oficialmente, Vorcaro comprou o Máxima em 2019 e o transformou no Master em 2021.

Fundo Fake e histórico de fraudes

A Operação Fundo Fake foi deflagrada pela PF em 2020 com o objetivo de desarticular uma organização criminosa especializada em fraudar institutos de previdência municipais (RPPS). Segundo o inquérito, “consultorias” indicavam fundos que prometiam rendimentos acima do mercado, levando previdências municipais a investir recursos que, depois, circulavam entre fundos e empresas do mesmo grupo de sócios.

Esse fluxo recorrente gerava pagamento duplicado de taxas. “É uma espécie de dinheiro virtual, já que, quando analisamos as carteiras de investimentos dos fundos, sempre se verifica que boa parte de seus ativos são investimentos em outros fundos do mesmo administrador”, escreveram os investigadores.

Para dar aparência de normalidade, os recursos circulavam entre os fundos, criando falsa “rentabilidade” e atraindo novos investidores, majoritariamente RPPS.

Desdobramentos e nova operação

Fraudes semelhantes já haviam sido investigadas em outras operações da PF, como a Encilhamento, em 2018, que apurou desvios estimados em R$ 1,3 bilhão em 28 fundos de previdência, e a Operação Papel Fantasma, em 2017, que atingiu institutos de previdência de oito municípios.

Em 23 de janeiro, a PF deflagrou a Operação Barco de Papel, considerada desdobramento direto dessa linha de investigação. A ação apura investimentos suspeitos de quase R$ 1 bilhão do Rioprevidência no Banco Master. Previdências públicas investiram quase R$ 2 bilhões na instituição.

Apesar do trancamento do inquérito contra Vorcaro por questões de temporalidade do controle do Máxima, a PF aponta que empresas usadas nos investimentos fraudulentos dos fundos de previdência municipais integravam a rede familiar de Vorcaro desde 2016.