Mordomo brasileiro de Epstein contesta suicídio do patrão: “Amava demais a vida”

Atualizado em 3 de fevereiro de 2026 às 8:01
Jeffrey Epstein e Valdson Vieira Cotrin. Foto: reprodução/The Telegraph

Antes de discursar na conferência do Partido Trabalhista em Londres, em setembro de 2002, Bill Clinton fez uma escala em Paris. O ex-presidente dos EUA voltava de uma viagem humanitária pela África e voava no jato particular de um homem que, à época, descreveu como “financista de grande sucesso e filantropo abnegado”.

O dono da aeronave era Jeffrey Epstein, empresário que mais tarde seria condenado por crimes sexuais. O avião, um Boeing 727-100, ficaria conhecido depois como “Lolita Express”.

No aeroporto de Le Bourget, em Paris, o mordomo de Epstein, o brasileiro Valdson Vieira Cotrin, foi buscar o patrão. Segundo ele, Epstein perguntou se gostaria de conhecer “o presidente”. Cotrin imaginou que fosse George W. Bush, mas encontrou Clinton, que havia deixado a Casa Branca no ano anterior.

“Eu estava tremendo, não é todo dia que se encontra alguém dessa importância”, afirmou Cotrin em entrevista ao jornal britânico The Telegraph.

Cotrin, que trabalhou para Epstein por 18 anos, declarou que o ex-chefe “amava demais a vida” para tirar a própria vida — versão que contraria a conclusão oficial de suicídio na prisão, em 2019. Epstein deixou-lhe US$ 2 milhões de herança.

Cotrin disse acreditar que Trump — que em 2002 chamou Epstein de “cara fantástico” em um perfil da revista New York — teria cogitado oferecer um cargo a ele no início de seu governo, mesmo após um desentendimento entre os dois em 2004 por causa de um negócio imobiliário.

Registros de voo mostram que Clinton fez até 26 viagens no avião de Epstein entre 2001 e 2003. Na viagem a Londres, em 2002, Clinton e Epstein estiveram ao lado do ator Kevin Spacey e de Ghislaine Maxwell, então companheira de Epstein. O grupo chegou a visitar o Palácio de Buckingham a convite do príncipe Andrew.

Jeffrey Epstein e Bill Clinton. Foto: reprodução

Cotrin, hoje com 63 anos e dupla nacionalidade francesa e brasileira, começou a trabalhar para Epstein naquele mesmo ano. Ele o chamava de “Monsieur”. Ao recordar o período, descreveu uma rotina intensa de presença feminina na casa do patrão. “Era uma troca constante de mulheres”, disse.

Em Paris, Cotrin era o único funcionário em tempo integral e acumulava as funções de mordomo, motorista e cozinheiro. Ele conta que preparou refeições e dirigiu para o príncipe Andrew “cinco ou seis vezes” e que celebridades e políticos frequentavam a residência de Epstein, como Woody Allen e o britânico Peter Mandelson.

O brasileiro afirma que nunca presenciou o chefe agir de forma predatória com menores de idade. Disse acreditar que jovens funcionárias eram contratadas para fazer massagens e cortar as unhas de Epstein.

Bill Clinton, hoje com 78 anos, sempre negou ter conhecimento dos crimes de Epstein e já declarou se arrepender de ter mantido contato com ele. Após a prisão do financista em 2019, um porta-voz do ex-presidente afirmou que ele “não sabia nada sobre os crimes terríveis” cometidos por Epstein.

Vai depor com a mulher Hillary no Congresso sobre o caso. Os dois teriam se conhecido no início dos anos 1990. Epstein doou US$ 10 mil para a Associação Histórica da Casa Branca em 1993 e participou de um evento com doadores organizado pelos Clintons. Registros eleitorais mostram ainda contribuições para campanhas de Bill e Hillary Clinton.

Depois de deixar a presidência, Clinton viajou com Epstein para destinos como Sibéria, Marrocos, China e Armênia, em viagens descritas como humanitárias, ligadas à Fundação Clinton. Uma intimação recente do Congresso americano cita a existência de uma foto em que Clinton aparece recebendo massagem de uma das vítimas de Epstein — alegação que ele não comentou publicamente.

A amizade entre os dois, porém, não teria resistido às acusações formais feitas contra Epstein na Flórida, em meados dos anos 2000. Não há registros de que Clinton tenha visitado outras propriedades do financista, como o rancho no Novo México, a casa na Flórida ou a ilha privada no Caribe.

Na casa de Cotrin, na França, há uma foto dele ao lado de Clinton dentro do avião de Epstein. Já na mansão de Epstein em Nova York havia um quadro do ex-presidente retratado no Salão Oval usando vestido e salto alto. A obra, da artista australiana Petrina Ryan-Kleid, ficou conhecida como Parsing Bill.

Ghislaine Maxwell, ex-companheira de Epstein, cumpre pena de 20 anos por tráfico sexual. Segundo Cotrin, ela “comandava tudo na casa”. Para ele, Maxwell é peça-chave para esclarecer o envolvimento de celebridades e políticos no escândalo. “Se alguém sabe de alguma coisa, é ela”, afirmou.