Presidido por Michelle Bolsonaro, PL Mulher ignora candidatura de Flávio

Atualizado em 3 de fevereiro de 2026 às 10:11
Michelle e Flávio Bolsonaro. Foto: Brenno Carvalho

O PL Mulher, presidido por Michelle Bolsonaro, tem ignorado nas redes sociais a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência, revelando um racha interno sobre o projeto eleitoral do clã Bolsonaro para 2026. O silêncio contrasta com a linha adotada pela direção nacional do partido e expõe divergências entre Michelle e os filhos de Jair Bolsonaro.

Um levantamento do UOL mostra que as páginas do PL Mulher não fizeram nenhuma menção a Flávio desde que a pré-candidatura foi anunciada publicamente, em 5 de dezembro, quando o ex-presidente indicou o filho para a disputa presidencial. Passados quase dois meses, não houve qualquer referência ao senador nos canais comandados pela ex-primeira-dama.

O comportamento difere do adotado pelo PL nacional. No mesmo período, o perfil oficial do partido no Instagram publicou mais de 40 postagens citando Flávio, muitas delas apresentando sua pré-candidatura como continuidade do legado do pai.

A ausência de apoio se repete nas redes pessoais de Michelle Bolsonaro. Desde o anúncio da pré-candidatura, não há registros de publicações da ex-primeira-dama mencionando o enteado ou a disputa presidencial.

Em contraste, Michelle usou seus perfis para exaltar o deputado Nikolas Ferreira, responsável por uma caminhada recente. Em dois posts, ela o chamou de “grande líder” e de “separado por Deus para este tempo”.

As publicações foram interpretadas por bolsonaristas como provocação e sinal de distanciamento em relação à candidatura de Flávio.

Disputa com os filhos de Bolsonaro

Segundo aliados do bolsonarismo ouvidos sob condição de anonimato, o silêncio de Michelle estaria ligado a rusgas com os enteados. A ex-primeira-dama não teria ficado satisfeita com a decisão de Jair Bolsonaro de ungir Flávio como pré-candidato, o que encerrou seus próprios planos eleitorais para 2026.

Michelle nutria o desejo de disputar a Presidência ou de ser vice em uma chapa apoiada pelo marido. No entorno dela, o cenário mais bem avaliado era uma composição com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Com a escolha de Flávio, a alternativa mais provável passou a ser uma candidatura ao Senado pelo Distrito Federal.

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A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Foto: Reprodução

Críticas internas e cobrança por engajamento

O comportamento de Michelle tem sido alvo de críticas dentro do bolsonarismo. Uma liderança próxima aos filhos de Bolsonaro afirmou que a ex-primeira-dama estaria colocando interesses pessoais acima de um projeto político liderado por Flávio e conduzido pelo próprio Jair Bolsonaro.

“Ela age como uma menina mimada que perdeu o brinquedo”, disse outro aliado, que também afirmou que Michelle tinha “obrigação” de demonstrar apoio ao senador por consideração ao marido preso. Para esses críticos, a ex-primeira-dama deveria usar seu capital político para impulsionar a pré-candidatura.

Aliados avaliam que Michelle poderia ajudar Flávio especialmente entre evangélicos e no eleitorado feminino, segmentos em que o bolsonarismo enfrenta dificuldades. Há também a leitura de que a estrutura do PL Mulher poderia ser utilizada para divulgar a pré-candidatura do senador.

Antes, Michelle vinha realizando viagens pelo país em eventos do partido. Essas agendas eram vistas como oportunidades para difundir a mensagem eleitoral. No entanto, as viagens foram suspensas.

Em 21 de janeiro, Michelle anunciou o adiamento de um evento do PL Mulher que ocorreria em fevereiro, no Tocantins, citando a situação de Jair Bolsonaro. Em dezembro, cancelou um encontro no Rio, alegando motivos médicos. As justificativas, porém, não convenceram o entorno dos filhos do ex-presidente.

Relação marcada por desgastes recentes

A relação entre Michelle e os enteados acumula atritos. No início de dezembro, ela criticou o PL por articular uma possível aliança com Ciro Gomes no Ceará. “Assim não dá”, disse, causando constrangimento interno.

Flávio classificou a atitude como “autoritária e constrangedora”, posição reforçada por Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro nas redes sociais. Michelle chegou a pedir desculpas, mas manteve as críticas à articulação.

Outro episódio recente envolveu Tarcísio de Freitas. Michelle repostou um vídeo do governador com críticas ao presidente Lula, gesto interpretado como mais um sinal de rejeição à candidatura de Flávio e de articulação para integrar uma chapa presidencial alternativa.

Ela também curtiu um comentário da esposa de Tarcísio, Cristiane, que dizia que o Brasil precisa de um “novo CEO, meu marido”. Para parte do bolsonarismo, a frase indicaria apoio a uma candidatura presidencial do governador; para outros, tratava-se apenas de um vocativo.

Michelle e Tarcísio, por fim, também atuaram juntos recentemente em articulações com ministros do STF para tentar viabilizar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro.