
Em mensagens de outubro de 2016, o criminoso sexual Jeffrey Epstein negociou a compra de uma agência de modelos brasileira com o objetivo explícito de “ter acesso a garotas”. O conteúdo aparece em e-mails incluídos em um novo lote de arquivos do caso Epstein, tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
Nos e-mails, um associado de Epstein envia ao empresário um relatório com informações sobre três grandes agências de modelos do Brasil — Elite, Ford Models e L’Équipe — além de citar a revista Harper’s Bazaar. O material traz sugestões sobre como estruturar eventuais acordos e detalha vantagens de cada opção.
A resposta de Epstein ao relatório foi a orientação para que fosse assinado um acordo de confidencialidade com a Ford Models, como passo inicial para a negociação.
O interlocutor de Epstein nas mensagens é Ramsey Elkholy, nome que aparece em centenas de trocas de e-mails com o empresário. Em uma das mensagens, datada de 2 de outubro de 2016, Elkholy expõe de forma direta as intenções atribuídas a Epstein.
“Presumo que você esteja mais interessado no acesso a (ele usa um emoji de uma garota)”, escreve Elkholy ao comentar a Ford Models. Em outro trecho, ao comparar Ford e Elite, ele afirma: “(Com a Ford), há muitas oportunidades para conhecer modelos, mas acredito que não o mesmo acesso direto do concurso (da Elite), onde as garotas são majoritariamente caipiras sem experiência”.
Concurso da Elite como “peneira”
Na mesma troca de mensagens, Elkholy explica como funcionaria um concurso nos moldes do Elite Model Look, descrito como uma espécie de peneira para meninas ingressarem no mundo da moda — prática comum entre os anos 1980 e 2000, que revelou modelos como Cindy Crawford e Gisele Bündchen.
Segundo ele, esse formato seria especialmente vantajoso para Epstein: “Isso implicaria ter acesso a todas as garotas, e você poderia decidir o que fazer com elas. É raro a vencedora desses concursos alcançar o estrelato; geralmente é outra garota que passou despercebida, e é por isso que eu gosto disso — para você, quero dizer. Basicamente, você poderia levar essas garotas para qualquer lugar nos EUA (existe uma agência brasileira que cuida dos vistos americanos), ou para Paris ou para o Caribe.”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/R/V/B31Na0Tbq1kFFlKpmrXg/troca-email1.jpg)
Elkholy estima que um concurso desse tipo no Brasil custaria cerca de US$ 250 mil e afirma ter enviado um PDF com mais detalhes. Ele relata ainda encontros com dois organizadores, descritos como “olheiros de concursos bem conhecidos no Brasil”, sem citar nomes.
Sobre a Ford Models, Elkholy afirma nos e-mails que a agência seria comandada por “um cara que nunca teve investidores” e que estaria “aberto a receber algum apoio”. Ele classifica a empresa como “um bom investimento, se você quiser expandir uma marca já estabelecida”.
Epstein responde pedindo que Elkholy providencie o acordo de confidencialidade, obtenha os números da agência e marque um encontro em Nova York. O associado informa, então, que a Ford Models estaria preparando o documento.
O CEO da Ford Models, Décio Restelli Ribeiro, negou qualquer vínculo com Epstein. “Eu posso ter feito uma reunião, como faço muitas. Mas eu lembraria se alguém quisesse comprar a minha empresa. A Ford nunca esteve à venda e não tem nenhuma relação com Jeffrey Epstein. Fico chateado e enojado de ver a marca, que faz 80 anos, citada por quem tem interesses escusos. Eu nunca venderia a Ford”, disse em entrevista por telefone ao Globo.
Elkholy também menciona a agência L’Équipe, descrita como “menor e administrada por apenas uma mulher”. Segundo ele, a empresa valeria cerca de US$ 1,5 milhão. “Ela não investiu muito em olheiros nos últimos anos, então é aí que vejo o maior potencial de crescimento”, escreve.
A revista Harper’s Bazaar também é citada como um negócio que “interessa muito”, mas Elkholy diz aguardar uma auditoria para definir um preço justo.
Histórico de mensagens e mulheres brasileiras
Ramsey Elkholy já havia sido identificado em outros documentos do caso como olheiro e recrutador de modelos para Epstein. Reportagem do Wall Street Journal apontou que os dois foram apresentados por uma namorada do investidor.
No novo lote de arquivos — cerca de três milhões de páginas, 2 mil vídeos e 180 mil imagens —, o nome completo de Elkholy aparece 2.267 vezes. Muitas mensagens tratam de encontros com mulheres, incluindo brasileiras.
Em 13 de junho de 2010, por exemplo, ele escreveu a Epstein ao enviar fotos: “Esta é Juliana, uma garota brasileira de 21 anos que eu vou levar para NY amanhã, muito sexy, pele incrível… Você estará na cidade segunda, terça ou quarta?”.
Já em 8 de junho de 2014, afirmou: “Lesley me escreveu e sugeriu terça, às 18h, e vai tentar trazer uma garota brasileira.” Epstein teve uma assistente executiva chamada Lesley Groff, mas os e-mails não esclarecem a quem a mensagem se refere.