
O Brasil precisa mudar a estratégia para enfrentar o crime organizado e conter sua infiltração no Estado, avalia a Human Rights Watch (HRW) ao analisar as políticas de segurança pública do país. A conclusão consta do relatório mundial de 2026 da organização, divulgado nesta quarta-feira (4), que examina a situação dos direitos humanos em mais de cem países.
No capítulo dedicado ao Brasil, a HRW defende uma reformulação ampla das políticas de segurança, com foco no enfrentamento às facções criminosas e na contenção de vínculos entre grupos ilegais e agentes do Estado.
O diretor da entidade no Brasil, César Muñoz, afirmou ter ouvido de um promotor responsável por investigações sobre facções que policiais estavam envolvidos em todos os casos conduzidos por ele.
“As facções cooptam agentes públicos para proteger as suas atividades ilícitas. Essa infiltração no poder público às vezes também envolve políticos, principalmente em nível local. Essa é uma face muito perigosa do crime organizado, pois pode corromper as instituições por dentro”, disse Muñoz em entrevista ao G1.
Segundo o relatório, o enfrentamento desse cenário exige investigações aprofundadas e baseadas em inteligência para identificar e romper essas conexões.
Propostas defendidas pela HRW
A organização aponta uma série de medidas que deveriam orientar a política de segurança pública no país, entre elas:
- propostas baseadas em ciência e dados para desmantelar grupos criminosos;
- proteção dos direitos da população e dos policiais;
- estratégias de segurança que priorizem a investigação policial;
- independência das perícias em todo o país;
- melhora da coordenação entre órgãos federais e estaduais para combater o tráfico de armas, a lavagem de
- dinheiro e identificar fontes de renda das facções.
Casos recentes expõem conexões criminosas
Investigações recentes revelaram a atuação da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) em setores como transporte público e mercado de combustíveis, além do uso de fundos de investimento sediados na Faria Lima para lavagem de dinheiro. Há também esquemas para fraudar contratos de prefeituras.
No fim do ano, a Justiça Militar condenou 11 policiais militares por fazerem segurança ilegal para Antonio Vinícius Gritzbach, delator do PCC executado a tiros no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. O caso expôs o envolvimento de agentes públicos com o crime organizado tanto na Polícia Militar quanto na Polícia Civil do estado.

Violência policial e modelo de segurança
O relatório também critica o modelo de atuação policial adotado no país. Dados do Ministério da Justiça, atualizados nesta terça-feira (3), indicam que policiais foram responsáveis por 6.519 mortes em 2025, um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior.
“Por muito tempo, adotou-se um modelo de combate ao crime baseado em operações de caráter militar, nas quais policiais entram em comunidades de baixa renda atirando. Já sabemos que esse modelo não resolve o problema da violência e do crime organizado. Ele cria insegurança e coloca em risco a população e os próprios policiais”, afirmou Muñoz.
A HRW sustenta que o Brasil precisa adotar propostas que protejam efetivamente os direitos das pessoas.
Segurança no centro do debate político
A segurança pública aparece como a principal preocupação dos brasileiros, segundo levantamento da Ipsos-Ipec divulgado na segunda-feira (2), no qual 41% dos entrevistados apontaram crime e violência como o maior problema do país.
Nos últimos meses de 2025, o tema ganhou destaque com a megaoperação policial contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos, entre eles quatro policiais.
O presidente Lula (PT) enviou ao Congresso a PEC da Segurança Pública, que amplia o papel do governo federal na definição de diretrizes nacionais, e um projeto de lei que endurece punições para integrantes de facções. As propostas seguem em discussão.
Para Muñoz, o peso do tema deve colocá-lo no centro do debate eleitoral. “Defendemos propostas sérias baseadas na ciência e em dados, que desmantelem os grupos criminosos e protejam os direitos de todos, tanto da população como dos policiais”, afirmou.