
Nas últimas semanas, o caso da estudante Beatriz Bueno movimentou as redes.
Ela foi desligada do programa de mestrado em Cultura e Territorialidades, que cursava na Universidade Federal Fluminense. Em longo texto detalhando o que ocorreu, Beatriz denuncia perseguição e relata inúmeras irregularidades no processo. A universidade lançou uma nota protocolar, em que afirma que todos os trâmites foram seguidos, e não se preocupou em desmentir as acusações da aluna, agora ex-aluna.
Chama a atenção a celeridade com que foi decidido o desligamento. Beatriz estava no mestrado há apenas nove meses, longe, portanto, de esgotar o prazo para terminar o curso. Em geral, problemas de desempenho são relevados e inúmeras “segundas-chances” são dadas a todos os pós-graduandos, até porque os cursos não têm nenhum incentivo para desligar quem quer que seja. A avaliação da CAPES, que é questão de vida ou morte para eles, penaliza quem forma menos gente do que deixou entrar.
É frequente – para falar a verdade – ver estudantes despreparadíssimos, se arrastando de disciplina em disciplina, até defender uma dissertação precária, que ainda assim é aprovada por uma banca ligeiramente constrangida. A severidade no caso de Beatriz é destoante da norma. No mínimo, podemos dizer, falhou com ela a boa vontade que é padrão em relação a seus colegas.
Também resta pouca dúvida de que a estudante enfrentava um ambiente hostil, por conta de sua linha de trabalho e de suas opiniões sobre temas controversos. Colegas e professores chegaram a promover um ciclo de palestras com o objetivo expresso de “reeducá-la” sobre questões de raça e gênero, no melhor estilo da Revolução Cultural maoísta. Aparentemente, o colegiado do programa tornou obrigatória a participação nestes eventos.
Como ela não se “reeducou”, foi expulsa. Esta é a versão de Beatriz. A UFF ignora esse pano de fundo e não comenta.

Beatriz Bueno é uma influencer, com mais de 100 mil seguidores nas redes sociais. Seu ponto é a promoção do conceito de “parditude”, para designar o local identitário da população mestiça no Brasil. Ela foi competente para fazer um barulho em torno do tema, mas angariou uma reação raivosa de muita gente. Influencers de muito mais alto coturno, intelectuais “diferentões” ou não, bibliografias obrigatórias hoje caídas em desgraça, muita gente graúda se mobilizou para criticar a proposta teórica incipiente de uma simples mestranda. Alguns, buscando manter a classe. Muitos outros, nem tanto.
Em perfis “progressistas”, a expulsão de Beatriz está sendo festejada. A Antra publicou uma postagem comemorativa – o outro ponto de ataque à estudante é sua defesa da realidade material do sexo biológico, um debate que transativistas tentam vetar. Muitos dizem que ela não tem lugar na universidade porque é pretensamente “racista” e “transfóbica.
Não falta quem argumente que o desligamento da estudante é justo porque lideranças da direita, que sempre estiveram contra a universidade pública, estão usando o caso para criticar a UFF. Mas isto é apenas outro aspecto do problema: a truculência de alguns grupos pretensamente progressistas contra seus críticos alimenta o discurso da direita, permite que ela generalize sobre a “intolerância da esquerda” ou os horrores da universidade pública.
Nestas bolhas, ninguém se preocupa com a legalidade ou não do processo na UFF. Ninguém se incomoda com a construção de um ambiente universitário que coíbe o dissenso e cerceia o debate. E, num mundo em que se ostenta tanto a preocupação com a saúde mental de cada um, vejo zero cuidado com a situação de uma moça de vinte e tantos anos, de origem modesta, com situação familiar complicada (cuidadora principal de uma mãe com transtornos psiquiátricos), enfrentando uma campanha absolutamente desproporcional contra ela.
Não sei qual a solidez teórica do conceito de “parditude”. Caso não seja muita, não será diferente do uso predominante de “negritude”, que é frouxo e apenas retórico. E ela não é a primeira, nem será a última, influencer que busca prestígio em títulos acadêmicos.
Cabe separar o trabalho nas redes do trabalho na universidade e dialogar com este último, julgando-o pelos próprios méritos. Mas, aqui, uma vez mais, vigoram dois pesos para duas medidas. As mesmas pessoas que têm youtubers e tuiteiros como gurus intelectuais (ou que se apresentam, elas mesmas, como gurus intelectuais a partir de sua posição como youtubers e tuiteiros) agora afirmam, no caso de Beatriz, que o ambiente acadêmico deve permanecer livre de qualquer contaminação.
O que ocorre, de fato, é que ela resolveu brigar por uma fatia do mercado identitário e com isso incomodou muita gente.
Ela causa tanto incômodo porque teve a sensibilidade de tocar em pelos menos três pontos que vêm causando mal-estar, o que é perceptível para qualquer pessoa que acompanhe, mesmo de longe, esses debates:
1) Existe um esforço para aglutinar pretos e pardos em uma grande categoria (negros), a fim de sustentar o discurso de que ela é a maioria da população brasileira, mas na hora de ganhar os benefícios das ações afirmativas, em muitos casos os pardos são desqualificados.
2) Há uma estigmatização da miscigenação, apresentada como sendo sempre fruto da violência, nunca de relações consensuais.