Fogo no parquinho: a interferência de Flávio e Michelle Bolsonaro em candidaturas de aliados

Atualizado em 5 de fevereiro de 2026 às 7:49
Michelle e Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodução

O senador Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro lideram uma ofensiva dentro do PL para que o partido lance candidatos próprios a governador em todos os estados em 2026, movimento que ameaça alianças já avançadas e interfere diretamente nas disputas ao governo e ao Senado em diferentes regiões do país, conforme informações do Globo.

Encabeçada por Flávio, que se apresenta como presidenciável, a estratégia busca garantir palanques “puro-sangue” do PL, sem compartilhamento com nomes da centro-direita, como os ventilados pelo PSD. O objetivo é associar as campanhas exclusivamente ao número 22, impulsionar o voto de legenda para deputado federal e ampliar as chances do partido nas disputas pelo Senado, uma das prioridades da família Bolsonaro em 2026.

Em São Paulo, a diretriz imposta por Flávio cria novo constrangimento ao governador Tarcísio de Freitas, filiado ao Republicanos. Ele já resistiu em outras ocasiões à pressão para migrar ao PL e mantém distância do presidente da sigla, Valdemar Costa Neto.

A avaliação do governador paulista é que uma candidatura pelo PL poderia deslocá-lo para uma posição mais à direita do que pretende ocupar em São Paulo, afastando partidos do Centrão e até facilitando a eleição de ao menos um senador ligado ao presidente Lula (PT).

Esse emparedamento já começou a ganhar corpo. O deputado estadual Gil Diniz, conhecido como “Carteiro Reaça”, passou a defender publicamente que o PL abandone Tarcísio e lance candidato próprio no estado, discurso que tende a se intensificar com a determinação de Flávio.

Apoio de Tarcísio à candidatura presidencial de Flávio pesa contra a entrega do posto de vice ao PL em SP
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Foto: Reprodução

Minas e o peso de Nikolas Ferreira

Em Minas Gerais, a nova orientação também provoca impacto. O vice-governador Mateus Simões, indicado pelo governador Romeu Zema para a sucessão e filiado ao PSD, esperava contar com o apoio do PL, o que ficaria inviabilizado. Outro nome afetado é o senador Cleitinho Azevedo, que lidera pesquisas.

Flávio conta no estado com um trunfo político: o deputado federal Nikolas Ferreira, principal figura do bolsonarismo nas redes sociais. O senador passou a estimular a possibilidade de lançá-lo ao governo mineiro, hipótese que não estava nos planos de Nikolas, defensor de uma aproximação com Mateus Simões.

Nikolas Ferreira falta em manifestação de Bolsonaro na Avenida Paulista para ir a casamento | Jovem Pan
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL). Foto: Reprodução

Disputa interna no Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, berço do bolsonarismo, o cenário é ainda mais complexo por causa da provável eleição indireta antes do pleito de outubro. Com a saída do vice Thiago Pampolha para o Tribunal de Contas do Estado, haverá dupla vacância quando o governador Cláudio Castro se desincompatibilizar para disputar o Senado.

A situação se agrava porque o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi afastado pela Justiça, e o interino Guilherme Dellaroli não pode assumir o governo. Caberá ao presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto, assumir provisoriamente e convocar a eleição indireta em até 30 dias.

Nesse contexto, há um embate dentro do próprio PL. Castro defende o nome de seu secretário da Casa Civil, Nicola Miccione, visto como um técnico que não disputaria a eleição direta. Flávio, por sua vez, quer emplacar um candidato que enfrente o prefeito Eduardo Paes e ofereça um palanque forte ao bolsonarismo.

O nome hoje mais cotado é o do secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas, deputado estadual licenciado, filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson, e aliado do presidente estadual do PL, Altineu Côrtes.

Bahia e Espírito Santo entram no radar

Em outros estados, o movimento também gera ruído. Na Bahia, o PL mantém proximidade com o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, que deve disputar novamente o governo. No partido, o ex-ministro João Roma é cotado para concorrer ao Senado.

No Espírito Santo, já há relatos de interferência direta de Flávio. O diretório local recuou nas negociações com o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, do Republicanos, e passou a defender o lançamento do senador Magno Malta ao governo estadual.

Michelle entra na disputa em Santa Catarina

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passou a atuar diretamente nos palanques estaduais. Em Santa Catarina, ela manifestou apoio público à deputada federal Caroline de Toni, que anunciou a saída do PL após recusar uma proposta do presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, e tenta viabilizar uma candidatura ao Senado em 2026.

Em publicação nos stories do Instagram, Michelle compartilhou imagens ao lado da parlamentar e escreveu: “Estaremos com você, Carol de Toni”. Ao responder, a deputada afirmou estar “sem palavras para agradecer o apoio incondicional” da ex-primeira-dama, a quem chamou de “líder nacional” e “mulher inspiradora”.

Story de Michelle Bolsonaro apoiando Carol de Toni. Foto: Reprodução/Instagram

A decisão de deixar o PL foi comunicada por Caroline de Toni a Valdemar Costa Neto após a recusa de uma proposta para integrar a chapa do governador Jorginho Mello como candidata a vice ou para disputar a reeleição à Câmara com promessa de liderança partidária em 2027. A deputada avaliou que não haveria espaço para sua candidatura ao Senado na chapa governista.

Nos bastidores, a avaliação é de que o PL dificilmente ocupará duas vagas na chapa majoritária em Santa Catarina. Pela direita, o cenário já inclui Esperidião Amin (PP) e Carlos Bolsonaro (PL), o que inviabilizou a permanência da deputada no partido. Após o rompimento, Caroline de Toni passou a avaliar convites de outras siglas para manter seu projeto eleitoral ao Senado.