Alunas relatam assédio por PMs em escolas cívico-militares no Paraná

Atualizado em 5 de fevereiro de 2026 às 14:47
O Paraná já implementou mais de 300 escolas no formato cívico-militar e planeja ampliar a rede em 2026. Foto: Divulgação

Um grupo de pelo menos nove meninas, com idades entre 11 e 13 anos, relatou à polícia que sofreu toques indevidos atribuídos a um monitor militar em uma escola cívico-militar localizada em Cornélio Procópio, no norte do Paraná. Os episódios teriam ocorrido ao longo de 2023, em momentos distintos, sempre dentro do ambiente escolar. Com informações da BBC Brasil.

As denúncias deram origem a um inquérito policial para apuração de estupro de vulnerável. O caso foi encaminhado à Justiça e passou a tramitar sob sigilo, condição que permanece até hoje. Por estar em fase recursal, o processo ainda não resultou em condenação, e as investigações seguem formalmente em andamento.

Em depoimentos prestados às autoridades, as estudantes afirmaram que os contatos físicos aconteciam durante conversas. Segundo os relatos, o monitor tocava partes do corpo das alunas quando “ia chamar a atenção ou conversar”. Uma das meninas declarou que ele “chegou a tocar em seu seio durante uma conversa, mas não consegue explicar se ele tocou ou olhou para ela de jeito sexual”.

Outras estudantes descreveram situações semelhantes. Uma delas afirmou que o monitor pegava “em sua nuca, mão, cabelo e cintura e isso lhe causava um certo incômodo”. Em outro depoimento, consta que, após um desentendimento entre colegas, o funcionário teria começado “a passar a mão em sua perna, o que a deixou desconfortável, mas entendeu que ele estava querendo acalmá-la”.

Mães das alunas também prestaram declarações no processo. Uma delas relatou que, sempre que o monitor conversava com a filha ou outras meninas, “colocava a mão no ombro, na cintura” ou apertava o braço delas”. Com a repetição dos relatos, familiares criaram um grupo de WhatsApp para trocar informações sobre o comportamento do funcionário.

Um boletim de ocorrência anexado ao processo menciona ainda uma denúncia feita ao Disque 100, canal do Ministério dos Direitos Humanos. No registro, a acusação era de que alunas “estariam sendo alisadas pelo monitor dentro da escola”. O ministério confirmou que recebeu a denúncia em 2023 e que a encaminhou ao Conselho Tutelar e à Polícia Civil da cidade.

Fachada do Ministério Público do Paraná. Foto: Alexandre Mazzo/Arquivo Gazeta do Povo

Apesar das acusações, o monitor militar continuou vinculado à escola após os primeiros relatos. Como a direção da unidade não tinha poder para demiti-lo, ele foi afastado das atividades de monitoria e passou a exercer funções administrativas, com restrição de contato com os estudantes.

O desligamento do programa de escolas cívico-militares ocorreu apenas em 2025, quase dois anos depois. Em resposta enviada por meio da Lei de Acesso à Informação, a Secretaria Estadual de Educação afirmou: “Ressalta-se que o desligamento foi efetivado tão logo esta Coordenação tomou conhecimento da decisão judicial, visando ao seu imediato cumprimento”. A pasta acrescentou que a medida “ocorreu em razão do cumprimento de medida cautelar imposta pelo Ministério Público do Estado do Paraná”.

O Ministério Público do Paraná informou que se manifestou pela absolvição do monitor, mas destacou que o processo segue em andamento, com recurso pendente de julgamento. Como a ação corre sob sigilo e ainda não transitou em julgado, o nome do acusado foi preservado nesta reportagem.

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 28 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.