
A ascensão e a queda do Banco Master ocorreram sob a supervisão direta do Banco Central durante a gestão de Roberto Campos Neto, entre 2019 e 2024, período em que a instituição financeira foi autorizada a operar, expandiu-se rapidamente e acumulou riscos que acabaram explodindo no sistema.
Embora o Master buscasse licença desde 2017, apenas em 2019, já com Campos Neto na presidência do BC, o controlador Daniel Vorcaro obteve autorização para atuar, apesar de seu histórico controverso no mercado imobiliário e de passagens por esquemas que atingiram fundos de pensão públicos.
A partir da autorização, o banco cresceu de forma acelerada com a emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) a taxas muito acima da média do mercado. Em 2019, o volume desses títulos somava R$ 2,5 bilhões. Em 2024, o montante já alcançava R$ 40 bilhões, com promessas de retorno de até 140% do CDI, quando o padrão do setor gira em torno de 100%. A expansão ocorreu mesmo diante de sucessivos alertas técnicos.
Relatórios internos do Banco Central indicaram descompasso nas provisões e fragilidades graves de gestão. Ainda assim, a resposta da autarquia limitou-se ao envio de ofícios. Foram 18 comunicações formais exigindo correções contábeis e adoção de boas práticas, sem medidas efetivas.
“A pergunta é: um banco que não se enquadra depois de receber dezoito ofícios do BC ainda tinha chances de se corrigir?”, ironizou um ex-integrante do Fundo Garantidor de Créditos, segundo a Revista Piauí.

Paralelamente, Vorcaro manteve interlocução frequente com a cúpula do Banco Central, somando 38 reuniões com diretores da instituição, inclusive uma com Campos Neto, na qual trataram de operações com precatórios. Mesmo diante de alertas do mercado, o então diretor de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves de Souza, minimizava os riscos, afirmando que havia “inveja do crescimento do Master” e que o banco ainda iria “colocar o ovo em pé”.
Com respaldo regulatório, o Master adquiriu outras instituições em 2024, como Voiter, Letsbank e Will Bank, que passaram a emitir CDBs sob o mesmo modelo, sempre destacando a garantia do FGC. A crise de liquidez só ganhou maior atenção em março de 2024, mas, na prática, nada mudou. Em novembro, já havia registro oficial de “irregularidades”, descumprimento de normas e envio de “informações incorretas”.
Campos Neto convocou Vorcaro para uma reunião de emergência e concedeu prazo de quatro meses para ajuste das contas. Àquela altura, o banco não tinha caixa para honrar quase R$ 50 bilhões em títulos. Pouco depois, Campos Neto deixou o BC e assumiu cargo executivo no Nubank, que passou a responder judicialmente por suposta venda de CDBs do Master com omissão de riscos.
Desde 2023, o FGC alertava que via “uma bomba” se formar. O Banco Central, porém, sustentava que “está tudo sob controle”. Não estava. Vorcaro foi preso no fim de 2025, e o caso revelou uma rede de influência que atravessou os Três Poderes, expôs falhas regulatórias e causou prejuízos a mais de 1 milhão de investidores.