Sakamoto: Racismo de Trump contra casal Obama é tática abjeta que saiu do controle

Atualizado em 7 de fevereiro de 2026 às 12:57
Publicação racista de Trump contra Michelle e Barack Obama. Foto: reprodução

Por Leonardo Sakamoto no Uol

Donald Trump afirmou que não vai se desculpar após um dos mais abjetos episódios de racismo de seu governo — e olha que a concorrência é grande. Um vídeo em que Michelle e Barack Obama aparecem como macacos foi postado em sua rede social. Tudo indica mais uma tentativa de produzir distração no debate público que, pelo grau de absurdo, saiu pela culatra.

Trump diz que não viu o vídeo até o final e que não foi ele quem o publicou. Não importa: se está na conta dele, a responsabilidade é dele. Seu governo alegou “erro” de um funcionário da Casa Branca — em bom português, culpou o estagiário — e apagou a postagem.

Em seguida, atacou a imprensa, jogando ainda mais lenha na fogueira. “Parem com essa indignação falsa e relatem algo que realmente importe ao público americano hoje”, disse a porta-voz Karoline Leavitt.

Ou seja, acusou os críticos exatamente daquilo que o próprio governo havia acabado de fazer: produzir algo que não interessa em nada ao cidadão comum (com exceção da ala neonazista do trumpismo) para desviar a atenção de temas incômodos. Como o aumento no preço dos alimentos, os arquivos do finado amigo do presidente (o predador sexual Jeffrey Epstein) e os protestos contra assassinatos cometidos pela guarda pretoriana de Trump, o ICE.

Não foi erro. O que houve foi cálculo mal feito. Ao tentar mais uma distração, Trump e sua equipe não dimensionaram o tamanho do rebosteio que causaria chamar de macacos duas figuras públicas negras entre as mais conhecidas do planeta.

O episódio ocorre logo após o casal Obama criticar publicamente o comportamento fascista da agência de imigração, que vem caçando e abatendo pessoas pelos Estados Unidos. “O assassinato de Alex Pretti é uma tragédia devastadora”, escreveram. “E deveria servir de alerta de que valores fundamentais da nação estão sob ataque.”

Foi vingança e tentativa de criar barulho. Mas saiu do controle.

Na política do choque permanente, o canal de comunicação costuma importar mais que a mensagem. Se ela embutir teorias da conspiração ou gatilhos para extremistas, melhor ainda: mantém seguidores e analistas ocupados enquanto o governo pressiona o que realmente lhe interessa.

No Brasil, vimos isso por quatro anos. Jair Bolsonaro sequestrou o debate público para se manter no centro das atenções e jogar fumaça sobre denúncias de rachadinhas ou sua responsabilidade na condução criminosa da pandemia. Houve frango com farofa, jet ski em meio a mortes, e até vídeo sobre “golden shower” (prática de sentir prazer ao lançar ou receber do parceiro jatos de urina) no carnaval.

Trump também tem sua versão da tática “golden shower”. A diferença é que, no caso dele, o risco não é apenas moral ou institucional. É civilizatório e tem escala global.

Não se trata de deslize, erro de comunicação ou funcionário distraído. Trata-se de método. Um método que banaliza o racismo, atualiza o fascismo e aposta no caos como ferramenta política. Quando se brinca de incendiar o debate público com ódio racial, o fogo não fica restrito às redes. Ele queima instituições, vidas e valores democráticos. Trump sabe disso. E, ainda assim, segue apertando o isqueiro.