Verissimo votou por engano em Jânio, mas quem votaria enganado em Nikolas? Por Moisés Mendes

Atualizado em 8 de fevereiro de 2026 às 12:29
Nikolas Ferreira (Foto: Kayo Magalhães/Agência Câmara)

Luis Fernando Verissimo escreveu mais de uma vez, como se fizesse uma penitência pública, que votou em Jânio para presidente em 1960. Poderia ter votado em Teixeira Lott, o marechal legalista que evitou um golpe.

Votou no candidato que, já naquela época, investia no marketing da faxina antissistema. Seu símbolo era uma vassoura. Iria varrer todas as sujeiras da política, na primeira eleição para a presidência na nova capital.

Suas credenciais: era histriônico, dominava o português, tinha uma síntese retórica que muitos passaram e imitar e representava a sabedoria. Jânio era professor e advogado e uma inteligência a ser admirada.

Expressava o que muitos gostariam de ser. Foi governador e prefeito de São Paulo. Verissimo votou nesse cara que renunciou após sete meses de governo e virou meme. Jânio era uma aberração política que se comunicava por falas e atitudes dramáticas e mesóclises.

Mas Verissimo tinha a desculpa de que ninguém poderia imaginar que Jânio seria o que acabou sendo. Também foi assim para muita gente que votou em Collor, que também prometia usar, como farsa, uma vassoura contra os marajás.

Mas não há como dizer, a partir de 2019, que no caso de Bolsonaro o erro só se configurou depois do início do governo. Bolsonaro é o antissistema e o anti-Lula que promove o salto da aberração política para a aberração humana que chega ao poder.

Bolsonaro aperfeiçoa todas as aberrações incorporadas a uma figura pública. E todos os que votaram nele em 2018 sabiam em quem estavam votando. Não só por suas posições políticas.

Sabiam que Bolsonaro era um extremista que ascende como a voz subalterna revoltada do Exército e vira político extremista misógino, racista, homófobo. Sabiam que ele havia sido um deputado medíocre que ameaçava mulheres. E que prometia fuzilar inimigos.

Jair Bolsonaro em manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo – Foto: Reprodução

Sabiam que ele dispunha de todas as ferramentas para fazer o que fez na pandemia, como negacionista que, ao mesmo tempo em que tentava vender cloroquina, comandava uma estrutura mafiosa de compra de vacinas dentro do governo. Sabiam que era um impostor e votaram nele de novo em 2022.

Por isso não aparecem hoje eleitores que possam imitar Verissimo e dizer: eu votei em Bolsonaro, no tom de quem admite o erro e ao mesmo tempo se apresenta como enganado. Não há enganados com Bolsonaro em 2018 e muito menos em 2022.

Como não serão enganados os que já começam a anunciar que um dia votarão em Nikolas Ferreira, quando o mineiro tiver idade mínima para se candidatar a presidente. Mesmo que seja só em 2034.

Nikolas é o aperfeiçoamento do que Bolsonaro já foi. Pela juventude, pela capacidade de revigorar preconceitos e explicitá-los sem nenhum pudor, pela multiplicidade como figura do mundo virtual e do mundo real que consegue até fazer caminhadas por estradas. Mesmo que os manés caminhem muito e ele caminhe pouco ou quase nada.

Nikolas é a promessa de potencialização de todas as aberrações numa só pessoa, e com o tempo chegará lá. O bolsonarismo sem Bolsonaro alcançará outro nível com o deputado homófobo que às vezes finge ser descolado.

Como fez num pod cast com Márvio Lúcio, o Carioca, e Marcos Chiesa, o Bola, em que disse ser admirador dos Racionais MC’s e de Mano Brown e que por isso conhecia todas as músicas deles.

Mas quando Carioca começou a cantar ‘Diário de um detento’, a mais poderosa de todas as músicas do grupo, para que Nikolas cantasse junto, o deputado empacou. Não sabia nada. Estava blefando.

É como se alguém dissesse que conhece tudo de Roberto Carlos e não soubesse cantar ‘Detalhes’, ou que lê grandes biografias e não consegue se lembrar de nenhuma que tenha lido.

Esse é Nikolas Ferreira, uma síntese do extremismo raso e embusteiro que mistura base religiosa com todo tipo de preconceito, ódios e ignorâncias, projetando o que poderá ser o bolsonarismo depois do fim de Bolsonaro.

Todos sabem o que ele é, conhecem suas ideias e atitudes extremistas e suas limitações. Nikolas é, como expressão da extrema direita que tenta se manter forte, melhor do que os filhos de Bolsonaro. E esse pode ser também, por imaturidade em meio a fascistas criados, seu maior problema.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/