
Neste domingo (08), António José Seguro, do Partido Socialista, foi eleito no segundo turno presidente de Portugal. Seguro bateu André Ventura, do Chega, partido da extrema-direita portuguesa. Ventura nunca escondeu o intuito de ser visto como o “Bolsonaro português”.
Seguro, assim como Ventura, surpreenderam no primeiro turno. O extremista de direita teve 23,5% na primeira volta – 4% acima das previsões das pesquisas. Já Seguro teve 8% mais ante as previsões das sondagens eleitorais.
Ele quase não foi candidato – o PS cogitou apoiar um nome de outro partido para evitar a vitória de Luís Mendes (PSD), candidato do premiê Luís Montenegro. As candidaturas de Cotrim Figueiredo (IL), numa legenda semelhante ao Partido Novo e do militar Henrique Gouveia Melo (Independente) embaralharam a disputa e recolocaram o PS no jogo.
Mendes acabou em quinto lugar, com apenas 11% num melancólico vislumbre para o PSD sobre a próxima eleição legislativa – os sociais-democratas, de centro-direita, devem perder o cargo de primeiro-ministro. Bons desempenhos de Cotrim e Melo também atrapalharam Ventura.
Juventude socialista
O socialista chegou lá com apoios inusitados. A primeira batalha vencida foi dentro do próprio partido, explica Guilherme Karl, cientista político da UERJ. “Os cabeças brancas do partido não o viam como competitivo num pleito com cinco candidaturas fortes. Mas o apoio da juventude socialista o reabilitou no partido”, diz. Seguro mesmo começou na política como presidente da JS.
Isso aconteceu porque Seguro acabou proscrito dentro do PS. Apesar da trajetória como deputado federal (1991-1995), secretário-adjunto no governo António Guterres, eurodeputado entre 1999 e 2001, ele foi considerado responsável pela apertada vitória obtida pelos socialistas em 2014 nas eleições para o parlamento europeu.
Uma “vitória por poucochinho”, como disseram os jornais portugueses à época. Esse cenário levou o PS a plenárias internas, fazendo António Costa, então presidente da Câmara de Lisboa e futuro primeiro-ministro (2015-2024), como novo líder do partido.
Como os socialistas haviam perdido o governo para o PSD em 2024, o PS reabilitou Seguro. O partido precisava das bases e da juventude – ninguém melhor que um ex-presidente da JS para acender a militância e retomar o governo.
Durante as eleições para o parlamento europeu em 2024, havia a preocupação com um possível crescimento do Chega, do extremista André Ventura. O Chega realmente cresceu 8,3%, batendo 9,8% do total. Mas o PS foi o mais bem-sucedido dos partidos portugueses na disputa para as cadeiras em Estrasburgo.
Cordão sanitário
Essa subida do PS, novamente sob a batuta de Seguro, levou a legenda a pensar se não seria possível vencer as eleições presidenciais. A aposta do PS em Seguro mostrou-se correta. No primeiro turno, o resultado foi 8% acima do esperado.
Além disso, diferentemente do Brasil, dos EUA e de vários países europeus onde há o mesmo fenômeno do crescimento da direita fascista, a classe política portuguesa mostrou-se atenta e não cedeu ao populismo. As sondagens mostraram Seguro com 63% a 66% dos votos.
O primeiro apoio veio de Gouveia Melo, o militar independente. Segundo Melo, apesar das diferenças com o PS, jamais votaria em André Ventura. Cotrim Figueiredo sinalizou um apoio indireto.
Já o premiê Luís Montenegro teve uma postura vergonhosa. Declarou neutralidade entre Seguro e Ventura. Mas os correligionários tiveram mais decência. Vereadores, deputados distritais, deputados federais e outros políticos do PSD declararam apoio em Seguro.
Samer Beloni, geógrafo e especialista em geopolítica dá sua visão: “Portugal conseguiu fazer um cordão sanitário em relação à Europa. Os 30% de Ventura são uma mostra que Portugal está lidando melhor com o fascismo do que o resto da Europa”.