
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou nas redes sociais a apresentação de Bad Bunny no show do intervalo do Super Bowl, na noite deste domingo (8). Sem citar diretamente o nome do artista porto-riquenho, Trump classificou o espetáculo como uma “bagunça” e afirmou que a performance foi uma “afronta à grandeza da América”.
“Absolutamente terrível, um dos piores de todos os tempos! Não faz sentido nenhum, é uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência”, escreveu Trump. Em seguida, atacou o idioma e a coreografia do show: “Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo, e a dança é repugnante”. O republicano concluiu dizendo que “esse ‘show’ é um tapa na cara do nosso país, que está estabelecendo novos padrões e recordes todos os dias”.

Bad Bunny se apresentou no intervalo da final da liga de futebol americano, um dos programas de maior audiência da televisão norte-americana. Neste ano, o jogo ocorreu no Levi’s Stadium, na Califórnia, com a disputa entre New England Patriots e Seattle Seahawks. O Super Bowl costuma atrair mais de 100 milhões de telespectadores apenas nos Estados Unidos e é considerado um dos eventos musicais mais assistidos do mundo.
A escolha de Bad Bunny para o palco principal do evento já havia provocado forte repercussão antes mesmo da partida. O cantor se tornou o primeiro artista a comandar um show de intervalo integralmente em espanhol, levando o reggaeton e o latin trap ao centro do espetáculo mais rentável do entretenimento esportivo dos EUA. Seis vezes vencedor do Grammy, o artista apresentou faixas do álbum “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”, que recentemente se tornou o primeiro projeto totalmente em espanhol a vencer a categoria Álbum do Ano no Grammy Awards.
O caráter simbólico da apresentação também incomodou setores conservadores. Grupos ligados à extrema direita, como o Turning Point USA, organizaram uma “programação paralela” ao show oficial, com apresentações alternativas transmitidas pelas redes sociais, em protesto contra o que classificaram como politização do Super Bowl.
Eu confesso que não sou fã das músicas de Bad Bunny. Porém, a mensagem foi emblemática, dado o momento que vivemos. Pelo ódio despertado, atingiu o objetivo. Noves fora, curti por desaforar racistas.
— ⚖️WE THE PEOPLE 🙌 .•. (@Boscardin) February 9, 2026
Não é segredo que Bad Bunny mantém um posicionamento político explícito associado à sua obra. Em 2019, ele interrompeu uma turnê para se juntar a protestos contra o então governador de Porto Rico, Ricardo Rosselló, ao lado de artistas como Residente, iLe e Ricky Martin. Desde então, o cantor se consolidou como uma das vozes mais influentes da cultura latina, sem abrir mão de cantar em espanhol ou de referências diretas à história e à identidade porto-riquenha, algo que, no passado, artistas latinos precisaram suavizar para alcançar o mercado norte-americano.
A apresentação ocorreu em meio a um momento de forte tensão política nos Estados Unidos. O Super Bowl foi realizado enquanto o país enfrenta uma onda de protestos contra o ICE, após mortes atribuídas à atuação da agência de imigração no estado de Minnesota. Na época do anúncio do show, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, chegou a afirmar que o ICE estaria “em todo o lugar” durante o evento.
Dias depois, porém, a NFL tratou de recuar no discurso. A chefe de segurança da liga, Cathy Lanier, afirmou que agentes do Serviço de Imigração e Alfândega não teriam qualquer participação no Super Bowl. Ainda assim, o clima de polarização seguiu evidente, especialmente diante da presença, no palco, de um artista identificado como porta-voz da comunidade latina em um momento de endurecimento das políticas anti-imigração.
Apesar das críticas, a NFL manteve apoio público à escolha do artista. O comissário Roger Goodell classificou Bad Bunny como “um dos grandes artistas do mundo” e ressaltou a importância do alcance global do show do intervalo, que pode chegar a mais de 200 milhões de espectadores em diferentes países. Para a liga e para patrocinadores como a Apple Music, o espetáculo é visto como uma vitrine cultural e econômica sem paralelo.
O ataque de Trump ao show transformou a apresentação em mais um capítulo da disputa cultural que atravessa os Estados Unidos. O que tradicionalmente é tratado como entretenimento “inofensivo” acabou exposto como palco de embates sobre identidade, imigração e poder simbólico, com a música latina ocupando, talvez pela primeira vez, o centro absoluto do maior evento esportivo do país.