
Por Rob Lucas, com tradução de Antonio Martins
Na minha última visita a Havana, em março de 2025, a cidade estava no meio do que era o pior apagão em anos. À medida em que o avião se aproximava, via o solo quase todo escuro – pontilhado apenas pela luz dos microssistemas, que funcionavam mesmo em momentos de falta de energia. Naquela noite de sábado, os bares estavam quase todos fechados, exceto aqueles que podiam pagar seus próprios geradores. Por acaso, meu vizinho de bordo durante a travessia do Atlântico era um engenheiro falante, de uma delegação da União Europeia que propunha parques solares descentralizados e baterias que, segundo ele, poderiam resolver os problemas crônicos de falta de energia por três décadas. Mas o progresso era lento – uma demora de anos, em vez de uma solução de curto prazo para a crise – e ele culpava a burocracia. A ilha se arrastava com o fornecimento de petróleo venezuelano, cada vez mais limitado pelas sanções dos EUA, enquanto recorria a outras fontes: México, Rússia, Argélia. Barcaças geradoras turcas, ancoradas em Havana, injetavam um pouco de energia extra na rede. Cuba sofre com apagões desde 2024, quando as importações de petróleo venezuelano caíram drasticamente, um problema agravado pelos geradores obsoletos, em grande parte da era soviética. A eletricidade, já limitada, é racionada por meio de desligamentos programados, enquanto os picos momentâneos de demanda são gerenciados por meio de cortes e apagões parciais. Nenhuma região escapa completamente – em alguns momentos, toda a rede elétrica entra em colapso –, mas fora da capital a situação é muito pior.
Figura 1: Exportações de petróleo bruto e derivados para Cuba desde 2020

Após um período de relativo otimismo, com a abertura promovida por Barack Obama e o início de um programa de “reformas” em Havana, a intensificação do bloqueio sob Trump e Biden deixou o Estado cubano em sua situação mais frágil desde a revolução. Tudo coincidiu com um contexto de desastres acumulados – a Covid-19, o colapso do turismo internacional, a alta da inflação global, a desordem macroeconômica local, a escassez de bens básicos e a migração juvenil em massa. Mesmo no “Período Especial” pós-soviético, quando também sofreu com problemas no fornecimento de energia e restrições no abastecimento de alimentos (que levaram a surtos de doenças até então desconhecidas), a ilha conseguiu sustentar uma população crescente. Agora, enfrenta um colapso demográfico . Em meio a uma série de infortúnios, em 2025, um ressurgimento internacional de doenças transmitidas por mosquitos, como chikungunya e dengue, atingiu um país que já enfrentava escassez de medicamentos, enquanto o furacão Melissa deixava um rastro de destruição no leste do país. Nesse cenário, uma concentração naval ameaçadora dos EUA no Caribe — a maior na região desde o fim da Guerra Fria — executava sumariamente, com mísseis, na costa venezuelana, supostos “narcoterroristas”. As alegações absurdas feitas pelo governo Trump sobre o “Cartel de los Soles”, enquanto intensificava a pressão sobre Maduro, reforçaram a sensação de que os verdadeiros objetivos não eram declarados. Seria Cuba o verdadeiro alvo?
As relações estreitas entre os Estados venezuelano e cubano começaram a se constituir logo no início do primeiro mandato de Chávez, com base em convicções políticas compartilhadas e na amizade entre o presidente venezuelano e Fidel Castro – que, segundo me contaram, costumavam se telefonar regularmente de madrugada, para debater política internacional e literatura. Em 2000, o Convenio Integral de Cooperación entre os dois países estabeleceu acordos segundo os quais Cuba enviaria pessoal médico e técnico em troca de petróleo. O tratamento por médicos cubanos tornou-se uma experiência cotidiana na Venezuela. Uma tentativa de golpe militar em 2002, um referendo revogatório em 2004 e um referendo constitucional perdido em 2007 levaram Chávez a recorrer sucessivamente ao apoio cubano para reforçar seu governo por meio de reestruturações das forças armadas e dos serviços de inteligência. Essa é a origem da presença de guarda-costas cubanos que seriam dizimados no sequestro de Maduro, em 3 de janeiro. Nas fantasias febris da direita de Miami, esses arranjos tornaram-se a base de uma tese segundo a qual o rabo abana o cachorro: a qual a ilha seria a verdadeira governante de um país muitas vezes maior em população, território e riqueza. A derrubada do chavismo por Washington poderia, portanto, ser implicitamente reinterpretada como um ato de libertação nacional da dominação cubana.
Desde o início de sua carreira política, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tem exibido suas credenciais anticomunistas à cena política de Miami, apresentando seus pais como refugiados da Cuba de Castro – ainda que eles tenham se tornado residentes nos EUA três anos antes da revolução. Já durante o primeiro mandato de Trump – um contexto receptivo a falcões da América Latina – Rubio desempenhou papel na formulação de políticas agressivas em relação a Caracas e Havana. Era, portanto, esperado que sua nomeação resultasse em maior pressão sobre ambos países. Desde o período pós-11 de setembro, com o objetivo de combater o financiamento da Al-Qaeda, os EUA haviam aprimorado suas ferramentas de guerra econômica, utilizando os departamentos do Tesouro e do Comércio para causar estragos às economias dos países considerados oponentes – Coreia do Norte, Irã, Rússia, Venezuela – excluindo-os dos mercados financeiros globais, dos mecanismos de compensação de divisas, do sistema de pagamentos SWIFT ou simplesmente tornando muito arriscado para os bancos negociar com eles. Os resultados típicos são inflação, desvalorização da moeda e escassez. Essas armas tornaram-se a escolha preferida, em um período em que as intervenções militares diretas perderam seu brilho, dado o desastre que resultou da invasão do Iraque e a humilhação da derrota para o Talibã.
O objetivo declarado das sanções dos EUA contra Cuba desde o início da década de 1960 tem sido deslegitimar o governo, infligindo sofrimento econômico à população. O fato de a esperada revolta ainda não ter ocorrido dois terços de século depois gerou pouca reflexão estratégica. Aparentemente, esse arranjo persiste há tanto tempo que a vasta literatura recente sobre sanções tem dificuldade em encontrar algo relevante a dizer sobre ele. A política dos EUA contra Cuba tem sido tão persistentemente punitiva desde a revolução que parece razoável questionar se há algo mais que se possa fazer.
No entanto, as sanções contra Cuba mudaram durante a nova era da guerra econômica, começando com o direcionamento do foco ao setor de turismo, em 2003, e continuando com a reimposição, pelos governos Trump e Biden, do Título III da Lei Helms-Burton, que visa deter o investimento estrangeiro por meio de ameaças legais. Com o interesse em “pontos de estrangulamento” geoeconômicos ganhando destaque na política externa dos EUA – e uma “virada hemisférica” no horizonte – a dependência cubana do petróleo venezuelano ofereceu um foco óbvio e a perspectiva de matar dois coelhos com uma cajadada só. Embora Cuba tenha mantido um grau significativo de apoio internacional, o remanescente impopular do chavismo oficial – que reinava de forma antidemocrática sobre uma sociedade mergulhada na corrupção e em suas próprias crises econômicas – era um alvo que poucos lamentariam internacionalmente, exceto Cuba.
A partir de 2017, o primeiro governo Trump intensificou as sanções contra a Venezuela. Mas, assim como no caso da Rússia, a guerra econômica não se resumiu a um simples bloqueio tradicional – apesar do espetáculo de petroleiros apreendidos no mar. Os velhos laços entre os setores petrolíferos venezuelano e norte-americano persistiram, ainda que de forma reduzida, mesmo sob Chávez. Além disso, a petroleira norte-americana Chevron obteve uma autorização especial do Departamento do Tesouro para continuar operando na Venezuela apesar das sanções – um acordo que só foi finalmente encerrado na primavera [nórdica] de 2025. Devido a essas complicações, as medidas estadunidenses ameaçaram ter um efeito contrário em alguns momentos: em um deslize cômico , o Estado russo, por meio da Rosneft, quase herdou uma importante parte da infraestrutura petrolífera norte-americana com o naufrágio da empresa venezuelana PDVSA, da qual a Rosneft detinha uma participação significativa, o que levou os funcionários do Tesouro a se mobilizarem para impedir o negócio.
Após uma pausa entre 2020 e 2022, as importações norte-americanas de petróleo bruto venezuelano foram retomadas em 2023 – bem antes da recente intervenção militar – a um ritmo muito superior ao que a Venezuela exportava para Cuba (compare a Figura 2, abaixo, com a Figura 1, acima). Em vez de visar apenas a produção, as sanções foram aplicadas – tal como no caso da Rússia – ao transporte marítimo, criando uma distinção, que os próprios EUA fiscalizaram, entre petroleiros “lícitos” e “ilícitos”. Não há dúvidas sobre em qual lado dessa linha se enquadravam os carregamentos para Cuba: parte da campanha de pressão naval sobre Maduro envolveu a apreensão, em dezembro , de um carregamento com destino a Cuba, num ano em que os próprios EUA já haviam comprado uma quantidade muito maior de petróleo bruto venezuelano. Os responsáveis pelas sanções nos EUA geralmente não se preocupam muito com reflexões sobre a coerência dos discursos legalistas e morais que acompanham seus atos de guerra econômica.
Figura 2: Importações americanas de petróleo bruto venezuelano desde 2017

Em 2025, o México substituiu a Venezuela como principal fornecedor de petróleo para Cuba, provavelmente oferecendo algum petróleo com desconto ou gratuitamente, embora em níveis bem abaixo dos que Caracas vinha enviando anteriormente. Agora, até isso está em dúvida, com o México suspendendo os embarques – uma decisão que Claudia Sheinbaum alegou ser “soberana”, embora a postura ameaçadora dos EUA em relação ao México, num momento em que o acordo de livre comércio EUA-México-Canadá está em revisão, seja um contexto relevante. No momento em que este artigo foi concluído, o governo Trump acabara de declarar que imporia tarifas a qualquer país fornecedor de petróleo, com base no argumento patentemente ridículo de que Cuba teria tomado “medidas extraordinárias que prejudicam e ameaçam” os EUA; e que “apoia o terrorismo e desestabiliza a região por meio da migração e da violência”.
O cerco está se apertando, mas Cuba possui algum suprimento interno de petróleo bruto e capacidade de refino, o que representa uma parcela não desprezível do seu consumo – 41% em 2023 , mesmo antes do colapso do fornecimento venezuelano. Aparentemente, é o bastante para sustentar as usinas termelétricas obsoletas que formam a espinha dorsal da rede elétrica cubana. O país também possui gás natural, que representou 12,6% da geração de eletricidade e 23,6% da produção interna de energia em 2023. Combinados, esses combustíveis fósseis, por si sós, representam a maior parte da produção de energia proveniente de fontes “soberanas”. Cuba pode, portanto, ter alguma capacidade de resistir até mesmo a um embargo total de combustíveis. Mas isso ainda será um desafio: não se deve subestimar o fato de que, no mesmo ano, a maior parte do suprimento de petróleo de Cuba – que representa 84% do seu consumo total de energia – veio da Venezuela.
Será que as energias renováveis podem vir a salvar a ilha? “Por mais que desejem, não podem nos tirar o sol”, disse um funcionário cubano com quem conversei em 2025. A China tem financiado projetos de energia solar em todo o país, e é possível imaginar que a situação possa se transformar relativamente rápido. Em 2023, a geração total de eletricidade foi de 54.304 MWh por dia, dos quais apenas 457,5 MWh, ou 0,8%, vieram da energia solar; mas a capacidade solar agora é de 3.250 MWh por dia – um aumento de 610% em apenas alguns anos. Embora ainda represente uma pequena parte do necessário (cerca de 6%, em 2023), prevê-se que esse número triplique, no mínimo, até 2030, elevando a energia solar a cerca de 18% do total. A participação combinada das energias renováveis na matriz energética já havia aumentado significativamente, atingindo 5,2% em 2021. Embora ainda não seja uma revolução energética, há indícios de que uma transição relativamente rápida seja possível, com a energia solar preenchendo cada vez mais a lacuna deixada pelas fontes de energia não soberanas. É possível que a atual crise energética represente, portanto, um momento crucial nas relações entre os EUA e Cuba, entre o fim da dependência do petróleo venezuelano e uma alternativa verde a essa subordinação.
A questão é se o Estado cubano tem capacidade para resistir tempo suficiente para alcançar um novo patamar estratégico. Além da exigência amplamente divulgada de Trump, em 11 de janeiro, de que Cuba “feche um acordo ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS”, e apesar de manter o tom ameaçador de sempre, ele demonstrou certa ambivalência quanto às perspectivas dos EUA nesse cenário – talvez influenciada por alguma avaliação de inteligência.
Acho que não há pressão maior, a não ser entrar lá e destruir tudo. Veja bem, eles têm a Venezuela como sua essência, sua vida inteira. […] Acho que Cuba está por um fio. […] Veja, Cuba recebeu todo o seu dinheiro para proteger. Eles eram como um protetor. São pessoas fortes e resistentes. São ótimas pessoas. Marco tem um pouco de sangue cubano. […] Acho que Cuba está realmente em apuros. Mas, sabe, as pessoas vêm dizendo isso há muitos anos, para ser justo, sobre Cuba. Cuba está em apuros há 25 anos. E sabe, eles ainda não afundaram completamente, mas acho que estão bem perto disso por vontade própria.
Apesar de Cuba estar enfraquecida, vale a pena relembrar alguns detalhes sobre a ilha que podem lançar dúvidas sobre as perspectivas de uma vitória fácil dos EUA.
É evidente que, em qualquer confronto militar direto, os EUA possuiriam uma capacidade destrutiva absolutamente esmagadora; poderiam facilmente “destruir tudo”. Mas Washington tem um histórico ruim quando se trata de vencer até mesmo guerras de pequena escala – algo que pode estar relacionado à sua dependência da superioridade tecnológica. Além disso, sua população geralmente se posiciona bem à esquerda do lobby de Miami em relação à política para Cuba: uma clara maioria apoiou a abertura promovida por Obama e o fim das sanções. Cuba, por sua vez, possui um arsenal pequeno e obsoleto – em sua maioria da era soviética – com alguns reforços russos mais recentes. Em nível global, porém, seus gastos militares são relativamente altos: 4,2% do PIB em 2020, segundo a última estimativa publicada pela CIA (embora valha a pena notar que essa participação no PIB pode ser parcialmente resultado da priorização dos gastos militares em um contexto de redução da produção total). De acordo com o relatório Global Firepower de 2025, seu orçamento de defesa era de US$ 4,5 bilhões – o que o coloca na 54ª posição entre 145 países: um valor bastante substancial para um país pobre com menos de 10 milhões de habitantes.
Cuba tem um histórico de se destacar em situações desproporcionais ao seu tamanho. É o único país de seu porte com um histórico de campanhas militares bem-sucedidas no exterior – realizadas por iniciativa própria e a convite dos movimentos de independência nacional em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique – sem mencionar as surpreendentes conquistas de inteligência contra os EUA. Cuba, é claro, vem se preparando para uma invasão estadunidense praticamente desde a revolução. Suas forças armadas contam com cerca de 50 mil membros ativos e estão fortemente integradas ao regime civil do Partido Comunista, enquanto grande parte da população está nominalmente disponível para convocação. Os militares gozam de alto nível de legitimidade entre a população cubana, tendo escapado da repressão interna, e controlam os setores mais lucrativos da economia – turismo, finanças, construção civil, imobiliário etc. E, com exceção da base americana em Guantánamo, Cuba tem a vantagem insular de fronteiras naturalmente defensáveis.
Embora qualquer confronto seja uma guerra de Davi contra Golias, um confronto direto com tropas em solo cubano poderia ser custosa e impopular para os EUA – fatores frequentemente decisivos para a capacidade de vencer uma guerra. O apelo de Trump aos cubanos para que se juntem a Washington “por vontade própria” e “fechem um acordo” é provavelmente, portanto, o caminho mais realista para uma vitória norte-americana. Se partes das forças armadas, da burocracia ou do governo estariam dispostas a atender a tais apelos – como parece ter sido o caso na Venezuela – é mais difícil de avaliar; essas questões são opacas por natureza. O fato de as Forças Armadas Revolucionárias controlarem setores-chave da economia em um contexto de liberalização parcial e crise generalizada talvez traga consigo um risco de corrupção. A experiência generalizada de famílias divididas entre Cuba e Flórida, com a inevitável comparação de riqueza, pode fornecer um atrativo subjetivo para indivíduos em todo o Estado cubano e nas forças armadas.
Mas não se deve subestimar a força do nacionalismo cubano. Seu Estado-nação é algo praticamente sui generis: o produto tardio não de iniciativas crioulas da elite, como foi típico nas Américas, mas da transição de uma luta convencional pela independência para uma guerra social pela libertação dos escravos, em um resquício tardio da economia atlântica de latifúndio. Isso conferiu ao projeto cubano uma dimensão social muito antes de Fidel Castro. Foi o que os EUA atacaram em 1898, quando invadiram o país sob o pretexto de apoiar a independência do povo cubano, para reivindicar as últimas colônias espanholas e se apoderar de grande parte da economia local. Por essa razão, a primeira e a segunda “repúblicas” de Cuba – para usar uma expressão do sociólogo Fernando Martínez Heredia – mostraram-se instáveis. Sob o domínio dos EUA, elas lutaram para estabelecer acordos que pudessem resolver as persistentes demandas sociais. Embora as pressões geopolíticas tenham impulsionado o país, no passado, em direção ao status de protetorado dos EUA, suas forças sociais impediram o desfecho. É algo que já acontecia mesmo sob o governo de Fulgencio Batista – um momento simbolizado em O Poderoso Chefão II no ato em que a máfia corta um bolo representando a ilha.
Tais tensões só puderam ser resolvidas por meio de uma revolução. Ela construiu um tipo peculiar de Estado – internacionalista, social, popular – distinto daqueles típicos de sua região: socialmente divididos, mal podendo ser considerados “nacionais”, propensos a golpes de Estado, com uma pequena elite rica controlando grande parte da economia e tendendo a se alinhar com interesses extrativistas estrangeiros; assolados pelo crime e pela corrupção; apenas fugazmente democráticos, quando chega a sê-lo. Dessa configuração, Cuba saiu em grande medida por meio da revolução, que – apesar de seus aspectos pesados, autoritários e burocráticos – manteve um aspecto democrático incomum e uma capacidade intermitente de participação em massa, ao longo de décadas. A identidade cubana é algo complexo, dada a sua dispersão diaspórica e a contradição incorporada no Estreito da Flórida. Mas, na medida em que ainda se identifica com um território e com uma experiência vívida de resistência a seu vizinho do norte, pode facilmente assumir uma forma militante. A identificação com a guerrilha mambise; a invocação da carga de facão; os brados de “pátria ou morte” – frequentemente proferidos nos mais altos escalões do Estado – não estão desligados de bases populares. E mesmo em meio a desencanto, após anos de crise e o declínio da geração revolucionária, ameaças externas poderão reacender essas brasas.
A famosa afirmação de Charles Tilly de que “a guerra criou o Estado” encontra plausibilidade aqui. O governo revolucionário teve que reformular os aparatos de segurança internos e as forças militares externas praticamente do zero, sob a ameaça constante de uma invasão norte-americana, e pôde fazê-lo com uma narrativa nacional convincente – a epopeia da independência, de Marti a Fidel Castro. Sob intensa pressão, criaram-se estruturas para impor disciplina contra as ameaças da contrarrevolução interna e da intervenção externa. Não é surpreendente que isso tenha resultado em um Estado parcialmente militar-autoritário. Vale lembrar que a França e a Grã-Bretanha formaram Estados semelhantes em seus momentos revolucionários – sem mencionar, é claro, a experiência mais ampla das revoluções comunistas no século XX. Aspectos do modelo de Estado cubano – monolitismo; suspeita em relação a correntes críticas; intolerância cultural – foram posteriormente importados de uma União Soviética então conservadora. Mas o país também preservou uma independência e uma capacidade de agir de forma diferente, que eram heranças de seu próprio momento anticolonial: não se pode simplesmente enxertar outro modelo de Estado sem bases materiais. Se houve alguma influência externa significativa na formação do Estado cubano, foi a pressão persistente a que ele foi submetido pelos EUA. Isso certamente intensificou as tendências à consolidação autoritária e prejudicou as perspectivas de plena participação democrática. Já a aceitação de imigrantes pelos EUA teve o efeito perverso de servir como válvula de escape para parcelas descontentes da população, mesmo que isso tenha prejudicado a demografia cubana.
Em comparação, apesar do longo histórico de golpes e corrupção anteriores a Chávez, e de uma Constituição democrático-popular sob seu governo, o Estado venezuelano nunca passou pelo mesmo tipo de transformação revolucionária. Apesar de Chávez ter buscado o apoio cubano na reestruturação de partes das forças armadas e dos serviços de inteligência, as transformações chavistas tiveram um alcance mais limitado. É provável que isso tenha aberto mais oportunidades para que agentes de inteligência dos EUA se infiltrassem ou encontrassem potenciais traidores com quem negociar. É difícil imaginar que o mesmo se aplique a Cuba. Sem dúvida, os serviços secretos de Washington têm estudado o terreno cuidadosamente para ver onde poderiam aplicar seus poderes, mas os mecanismos criados para impedir tais ações podem ainda estar em funcionamento. O exemplo recente de Alejandro Gil Fernández, Ministro da Economia até sua queda em 2024 – condenado por espionagem, corrupção, peculato, suborno, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro – pode ser um sinal disso, embora a miscelânea de alegações e a opacidade do processo sugiram que não se deva aceitar a versão oficial sem questionamentos. Circulam rumores sobre casos de corrupção em altos escalões e cooptação por serviços de inteligência estrangeiros, mas é difícil saber a quem atribuir crédito. O maior perigo reside aqui. Estados revolucionários não se mantêm inalterados ao longo do tempo, e suas mutações estão frequentemente ligadas à perda de seus fundadores. Com a passagem da geração revolucionária, Cuba navega em águas desconhecidas. Será que seu antigo antagonista finalmente encontrará colaboradores adequados? Ou as agressões mobilizarão novas gerações?
Publicado originalmente em Outras Palavras