Brasileiro que queria “adrenalina” vê amigo morrer e passa fome na Ucrânia

Atualizado em 11 de fevereiro de 2026 às 13:42
O baiano Redney Miranda na Ucrânia. Foto: Reprodução/TV Globo

O baiano Redney Miranda deixou o Brasil para lutar na guerra da Ucrânia movido por um antigo desejo de servir como militar. Sem experiência, decidiu ir ao conflito em busca de “adrenalina”, após não conseguir ingressar no Exército brasileiro.

“Desde moleque, assistindo filmes, eu tinha vontade de servir o Exército. Não consegui aqui e não deixei esse sonho para trás”, afirmou ao “Fantástico”, da TV Globo. A ideia era permanecer 30 dias. Ele ficou 172, quase seis meses.

Nesse período, enfrentou bombardeios constantes, viu colegas morrerem e sofreu com a falta de alimentos. “A comida era ração militar. Passei a ficar três dias só com o tempero do macarrão instantâneo”, relatou.

Ao retornar ao Brasil, disse ter perdido cerca de 28 quilos. “Cheguei com 90 quilos e voltei com sessenta e poucos”, contou. Durante um ataque, foi atingido por estilhaços de granada e afirmou ter ficado temporariamente com parte do corpo paralisada.

Redney afirmou ter presenciado a morte de 17 colegas, entre eles o paranaense Wagner, conhecido como Braddock. “Ele saiu da trincheira sem equipamento e um drone atingiu. Estava sem colete, sem nada”, disse.

Bandeira da Ucrânia em meio a imóvel destruído durante a guerra contra a Rússia. Foto: Getty Images

A saída da linha de frente, segundo o relato, também foi marcada por tensão. “A gente teve que correr dos próprios ucranianos. Tivemos que lutar contra eles para conseguir fugir da trincheira e ir para uma cidade mais próxima”, afirmou. Ele conseguiu deixar o país e voltou ao Brasil em janeiro.

A mãe, Jaída Miranda, contou que passou meses sem notícias. “A gente acha que não vem mais. Só imagina coisa ruim”, disse. Durante o conflito, Redney mantinha contato com a filha por chamadas de vídeo. A menina chamava a trincheira de “buraco”. “Eu não posso sair de casa, que ela fica ligando e fala: ‘Papai, você foi para o buraco de novo?’”, relatou.

De volta ao Brasil, ele tenta retomar a rotina e conviver com as lembranças do front. “Talvez com a filha por perto as coisas mudem um pouco. Ela deixa o dia mais leve”, afirmou.

Segundo o Itamaraty, 19 brasileiros morreram na guerra e 44 estão desaparecidos. A embaixada da Ucrânia informou que não recruta brasileiros e que quem se alista assume os mesmos direitos e deveres de um cidadão ucraniano em serviço militar.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.