
O médico Jorge Antonio Bergés morreu aos 83 anos sem revelar o paradeiro dos netos procurados pelas Abuelas de Plaza de Mayo há quase meio século. Condenado por torturas e pelo roubo de bebês, ele atuou como obstetra em centros clandestinos de detenção durante a última ditadura argentina (1976-1983), assistindo partos de mulheres sequestradas e participando da apropriação ilegal dos recém-nascidos, entregues a famílias ligadas ao regime.
Bergés cumpria prisão perpétua em regime domiciliar, em Quilmes, na região metropolitana de Buenos Aires, e morreu em uma clínica da cidade.
A organização H.I.J.O.S. Capital lembrou, ao anunciar sua morte, que ele nunca colaborou com a Justiça. “Sua família pôde se despedir. Aqui seguimos sem saber onde estão nossos familiares desaparecidos e nossas irmãs e irmãos apropriados”, afirmou a entidade nas redes sociais.
Bergés tornou-se um dos repressores mais conhecidos do país pelo papel central que exerceu e pelos relatos de sobreviventes que denunciaram sua participação em sessões de tortura e partos forçados no chamado Circuito Camps, conjunto de quase 30 centros clandestinos sob a órbita da Polícia da Província de Buenos Aires.
Um dos testemunhos mais marcantes foi o da física Adriana Calvo, sequestrada em 1977. Ela entrou em trabalho de parto enquanto era transferida, vendada e algemada, entre centros de detenção, e deu à luz dentro de um carro policial.
Segundo seu depoimento no histórico Julgamento das Juntas, os agentes amarraram o cordão umbilical com um pano sujo e só depois, já em uma sala, Bergés o cortou e a obrigou a limpar o chão nua, enquanto sua filha chorava de frio. O relato voltou a comover o país ao ser retratado no filme “Argentina, 1985”.
Conhecido como “o obstetra do mal”, Bergés ingressou na polícia em 1964 e, após o golpe de 1976, atuou sob o comando de Miguel Etchecolatz. Sobreviventes o apontaram como responsável por controlar um instrumento chamado “picana eléctrica” — um bastão que aplica choque elétrico — e por assistir partos de presas políticas.
Teresa Laborde Calvo, filha de Adriana, lamentou que ele tenha morrido sem romper o pacto de silêncio. “Morreu o obstetra do mal sem nos dizer onde estão os bebês que roubou”, escreveu. As Abuelas de Plaza de Mayo já restituíram a identidade de 140 netos, mas estimam que cerca de 300 ainda desconheçam sua verdadeira origem.
A Justiça também investigava suspeitas de que Bergés tenha participado de casos de tráfico de crianças antes e depois da ditadura. Sua morte leva consigo respostas que nunca vieram à tona.