
A crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF), que culminou na saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Banco Master, foi marcada por uma reunião tensa e decisiva entre os dez ministros da Corte. O encontro, realizado a portas fechadas e com duração de cerca de três horas, teve como pano de fundo um relatório sigiloso da Polícia Federal com menções ao nome do magistrado em mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo o jornal O Globo, relatos de participantes indicam que o clima inicial foi “pesado” e de “tensão geral”. Ao perceber resistência crescente à sua permanência na condução do processo, Toffoli indicou que poderia deixar a relatoria “a pedido”, gesto que abriu caminho para uma solução negociada.
Em contrapartida, os ministros rejeitaram a hipótese de suspeição e reconheceram “a plena validade dos atos praticados” por ele até então, evitando a anulação das provas já produzidas.
A decisão foi formalizada em nota conjunta, na qual os ministros afirmaram que “não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição” e reiteraram apoio institucional ao colega. O texto destacou que a redistribuição do processo atenderia aos “altos interesses institucionais” e permitiria a continuidade das investigações sem prejuízo jurídico.
O caso foi redistribuído ainda na mesma noite ao ministro André Mendonça, garantindo que a apuração sobre suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o banco siga no STF. A manutenção da validade dos atos impede que depoimentos, perícias e mandados de busca sejam anulados, cenário que poderia atrasar significativamente a investigação.

A crise foi agravada após a Polícia Federal identificar mensagens entre Vorcaro e Fabiano Zettel discutindo pagamentos relacionados à empresa Maridt, da qual Toffoli é sócio. O ministro afirmou que declarou todas as transações à Receita Federal e que “nunca recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel”. Ele também classificou as suspeitas como “ilações”.
Durante a reunião, Toffoli apresentou documentos e fez uma defesa detalhada das acusações. Ainda assim, prevaleceu entre os colegas a avaliação de que a pressão interna e externa tornaria inviável sua permanência no caso. Quando sinalizou disposição para sair, o ambiente foi descrito como de “alívio geral”.
Após o encontro, o ministro limitou-se a comentar o resultado com a imprensa. Questionado sobre o clima da reunião, respondeu: “Excelente. Tudo unânime”. Nos bastidores, integrantes do STF admitem que o episódio pode deixar “sequelas crescentes” na relação entre os ministros, indicando um período de menor coesão interna.
A saída de Toffoli também ocorre em meio à escalada política em torno do caso, com cobranças por investigações no Congresso e manifestações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a necessidade de transparência. Apesar disso, a decisão do STF buscou preservar a estabilidade institucional e impedir que o processo retornasse ao início.
Veja a nota dos ministros do STF:
“Os dez Ministros do Supremo Tribunal Federal, reunidos em 12 de fevereiro de 2026, considerando o contido no processo de número 244 AS, declaram não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição, em virtude do disposto no art. 107 do Código de Processo Penal e no art. 280 do Regimento Interno do STF.
Reconhecem, assim, a plena validade dos atos praticados pelo Ministro Dias Toffoli na relatoria da Reclamação n. 88.121 e de todos os processos a ela vinculados por dependência.
Expressam, neste ato, apoio pessoal ao Exmo. Min. Dias Toffoli, respeitando a dignidade de Sua Excelência, bem como a inexistência de suspeição ou de impedimento. Anote-se que Sua Excelência atendeu a todos os pedidos formulados pela PF e PGR.
Registram, ainda, que a pedido do Ministro Dias Toffoli, levando em conta a sua faculdade de submeter à Presidência do Tribunal questões para o bom andamento dos processos (RISTF, art. 21, III) e considerados os altos interesses institucionais, a Presidência do Supremo Tribunal Federal, ouvidos todos os Ministros, acolhe comunicação de Sua Excelência quanto ao envio dos feitos respectivos sob a sua Relatoria para que a Presidência promova a livre redistribuição.
A Presidência adotará as providências processuais necessárias, para a extinção da AS e para remessa dos autos ao novo Relator”.
Assinam:
Luiz Edson Fachin, Presidente
Alexandre de Moraes, Vice-Presidente
Gilmar Mendes
Cármen Lúcia
Dias Toffoli
Luiz Fux
André Mendonça
Nunes Marques
Cristiano Zanin
Flávio Dino