
O mundo nunca produziu tanto lixo em nome da arte. No Brasil, há lixo na música da repetição esquemática da gritaria do sertanejo patrocinado pelo agro golpista. No mundo, há lixo no streaming dos filmes e das séries grotescas.
Há lixo porque lixo vende. Nunca foi tão fácil produzir e disseminar música dita sertaneja no Brasil. Nunca americanos e europeus produziram tantos filmes para a TV. É muita porcaria, é um excesso de coisas bizarras.
Nunca a arte esteve tão engajada a mensagens retrógradas, misóginas e até racistas como agora. Tropeçamos em lixões que cobram para serem consumidos como lixo, como se quase tudo hoje fosse criado por inteligência Artificial.
E aí aparece o pernambucano João Gomes cantando e dançando piseiro em todo o Brasil. E depois aparece, para a maioria que não o conhecia, o porto-riquenho Bad Bunny.
João Gomes é o anti-sertanejo, pelo poder de expor, e não de esconder, as raízes da sua arte. Por ser genuíno no palco e fora dele. Por afirmar sua condição nordestina, não como marketing sob suporte da Globo, mas como condição para que se mantenha artista com a origem que o define.
Bad Bunny vai além e politiza sua música e sua fala. Como fez ao receber o Grammy e gritar “fora ICE”, desafiando a milícia anti-imigração de Trump. No show do intervalo do Super Bowl, na final da liga do futebol americano, citou um por um todos os países da América Latina e gritou: “Juntos, somos a América”.
No país que acovardou os artistas com a perseguição a imigrantes, o porto-riquenho Benito Antonio Martínez Ocasio defendeu sua gente. Sim, há outros que não se acovardam, nos Estados Unidos e no Brasil, mas no Brasil são sempre os mesmos. Chico, Martinho da Vila, Emicida, Alcione, Gil, Guilherme Arantes, Marcelo D2, Mano Brown, Racionais Mc’s.

Bad Bunny é a cara nova do antifascismo num palco mundial. Trump considerou seu show, com referências à alma latino-americana, uma ofensa à América. Porque Trump acha que a América são apenas os Estados Unidos.
Foi o enfrentamento das crueldades e ofensas da xenofobia racista. Que deveria ter mais equivalentes em outros países e no Brasil, com a explicitação de posições de artistas que não se encolhem. Para que o país se livre das falsas neutralidades.
Bad Bunny decidiu encarar o fascista mais poderoso do mundo, dentro do seu país. Na língua latina. Porque quase nunca canta músicas em inglês, mas em espanhol. A sua língua é a sua arma e a sua pátria.
Não basta que a extrema direita odeie quem a enfrenta. A extrema direita precisa ficar desconfortável e se sentir ameaçada. A politização da arte compensa a perda de vitalidade e até a alienação na política formal, da representação e do voto.
Bad Bunny tirou Trump da toca no maior evento de entretenimento dos Estados Unidos e o obrigou a dizer que se sentiu desafiado. O porto-riquenho não tem medo de Trump. A arte não pode ter medo do fascismo.
É preciso dar dimensão política às vozes e aos sons que vieram antes de todos os que hoje cantam e dançam o piseiro, o forró, a salsa, o blues, a bomba, o samba, o baião, a bachata, o rock, o reggaeton, o frevo, o hip-hop.
Sei, vão dizer que a música de João Gomes não tem os ingredientes sociais e políticos da arte de Bad Bunny. Tudo bem. Poderá ter, se a raiz em que ele se agarra produzir troncos e galhos como o porto-riquenho fez com o seu canto.
Não precisa atacar o fascismo diretamente, mas pode defender as vítimas da extrema direita, como Bad Bunny faz. Há bons textos na internet sobre o que a sua música representa, como afirmação e como afronta.
A nova geração da música brasileira teria a força de Bad Bunny para enfrentar o ódio e a imposição de mentiras e preconceitos do fascismo? Talvez ainda não tenha, com as exceções do funk paulista e carioca.
Mas em algum momento deverá ter. Para que se junte aos que há décadas combatem racistas, xenófobos, homófobos e golpistas. Os velhinhos que resistem precisam da vitalidade dos que estão chegando.
Originalmente publicado em Extra Classe