
Há mais de 50 anos, todos os dias, os iluminados do Brasil iluminista acordam com um conselho pronto, certeiro, sobre o que Lula deve ou não fazer.
Hoje, a pauta é o Sambódromo.
Eu me pergunto: depois de cinquenta anos de vida política, por que ainda há tanta gente convencida de que precisa dizer a Lula como se comportar?
Das poucas certezas que tenho, uma é incontestável. Há um raro consenso no país: extrema-direita, direita, centro, esquerda e extrema-esquerda concordam em um ponto. Todos querem ser o tutor de Lula. É assim desde o sindicato. Diante de tamanha convergência, uma reforma institucional poderia ser considerada. Algum deputado poderia sugerir uma “emenda constitucional”: em vez de eleições presidenciais, deveríamos escolher diretamente o tutor de Lula. Seria mais eficiente e pouparia o país de tantos conselhos não solicitados.
O curioso é que muitos desses faróis, orientadores desnecessários, têm dificuldade em governar a própria agenda; sequer são presidentes da própria existência, mas se dispõem a orientar um líder que atravessou cinco décadas de disputas, retornos e vitórias, mantendo uma habilidade política rara e uma popularidade que resiste ao tempo. Há, nisso, uma confiança admirável na própria capacidade de aconselhamento. É a tal altíssima autoestima.

Passados cinquenta anos de vida política, três vezes presidente eleito, 580 dias de prisão, maior líder popular da história do Brasil, com reconhecimento internacional… todos sabem o que Lula deve fazer — menos o próprio Lula.
Quanto ao Sambódromo, talvez a decisão seja menos dramática do que parece. Para alguém que construiu sua trajetória no contato direto com o povo, uma noite de Carnaval é apenas mais um capítulo de convivência com o país real. E, no fim, Lula certamente fará o que sempre fez: ouvir muitos conselhos, agradecer mentalmente por todos e seguir o próprio instinto.
Enquanto o Brasil iluminado dos iluministas continua exercendo sua vocação favorita, a de ser tutor voluntário do presidente, eu, no meu canto, apenas lamento que Lula não possa emular Itamar e produzir uma fotografia histórica, em ângulo caprichado, ao lado de uma modelo descalcinhada.