
O desfile da Acadêmicos de Niterói, que acontece neste domingo (15) na Marquês de Sapucaí a partir das 22h, vai além de uma simples homenagem a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A escola trará elementos políticos do governo e fará críticas veladas a adversários, com destaque para figuras como Donald Trump e a oposição no Brasil.
Haverá referência a momentos marcantes da trajetória de Lula, ao Partido dos Trabalhadores (PT) e a elementos que envolvem a cena política atual.
O samba-enredo, assinado pelo carnavalesco Tiago Martins, será conduzido em primeira pessoa por Dona Lindu, mãe de Lula. Eurídice Ferreira de Mello, mãe de oito filhos, relembra a travessia de “13 noites e 13 dias” em um caminhão pau-de-arara entre Garanhuns (PE) e a periferia do Guarujá, no litoral paulista. Ela será interpretada pela atriz Dira Paes na avenida.
A composição é assinada por Teresa Cristina, André Diniz, Paulo César Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho Cruz, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr. Com o tema “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a Acadêmicos de Niterói abre os desfiles da elite carioca.
A lista de autoridades previstas para desfilar no último carro, ao lado da primeira-dama Janja, foi reduzida nos últimos dias. Não participarão mais Macaé Evaristo, Alexandre Padilha, Margareth Menezes, Fernando Haddad, Esther Dweck, Camilo Santana, Guilherme Boulos, Jader Filho, Sonia Guajajara, Rui Costa e Gleise Hoffmann. Todos estariam posicionados em uma base próxima ao chão no carro alegórico final.
A escola também havia cogitado um setor dedicado a Jair Bolsonaro, com uma escultura do palhaço Bozo e um vampiro-monstro. Segundo o livro abre-alas, o trecho foi retirado do desfile. Entre os familiares, desfila Maria Beatriz da Silva Sato Rosa, a Bia Lula, neta mais velha do presidente, sem destaque específico. Também estão confirmados nomes como Klebber Toledo, Camila Queiroz, Antônio Pitanga, Paulo Betti, Camila Pitanga e Angela Leal.
A atriz e cineasta Juliana Baroni interpretará a ex-primeira-dama Marisa Letícia, com quem Lula foi casado por mais de quatro décadas. Juliana já viveu Marisa no filme “Lula, o Filho do Brasil”, lançado em 2009. Dona Marisa morreu em 3 de fevereiro de 2017. Já o ator Paulo Vieira representará o presidente no desfile.
O samba-enredo vai abordar temas como a “taxação BBB” (bilionários, bancos e apostas) e a luta pelo fim da escala 6×1, que prevê seis dias de trabalho e apenas um dia de descanso. Para isso, o desfile terá diversas alas com fantasias que carregam mensagens políticas.

Uma delas, dedicada ao PT, trará componentes fantasiados com a estrela vermelha. A ala será uma homenagem à fundação do partido, destacando a importância do sindicalismo brasileiro e a liderança de Lula nesse processo.
O desfile também fará uma menção ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em um setor batizado de “Patriotas da América”. A ala é composta por componentes com fantasias inspiradas no personagem Mickey Mouse e no boné “Make America Great Again” (MAGA).
A agremiação também fará uma menção indireta ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que atuou a favor das sanções econômicas impostas pelo governo dos EUA ao Brasil.
A oposição ao governo também será alvo de críticas diretas no desfile, em um setor chamado “Neoconservadores em conserva”. Uma lata será a figura central, representando a defesa da “família tradicional” e simbolizando a ascensão da extrema-direita no Brasil. A fantasia visa ironizar a postura dos movimentos fascistas que atuam fortemente contra Lula e suas políticas.
Na descrição da escola, a cabeça dos componentes terá “uma variação de elementos para enumerar os grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo. São eles: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da Ditadura Militar e os grupos religiosos evangélicos. No Congresso Nacional, formam um bloco conservador que possui capacidade de flexibilizar os direitos e exaltar as Forças Armadas, interessando-se em defender os valores tradicionais da família”.
A luta pela taxação dos super-ricos e a revisão do sistema tributário, com foco na “taxação BBB”, será retratada de forma jocosa. A escola criticará a desigualdade tributária com um toque de humor, algo que já tem sido uma bandeira do presidente desde seu terceiro mandato.
O tema da escala 6×1 também será abordado com figurinos que evocam a ideia de controle do tempo, criticando a exploração dos trabalhadores e os patrões que “controlam” o tempo dos funcionários como se fossem robôs ou brinquedos.
O desfile da Acadêmicos de Niterói ganhou uma grande dimensão política, e isso não passou despercebido pela oposição e pela mídia. Partidos contrários ao governo de Lula enxergam o evento como uma campanha antecipada para a reeleição do presidente, o que já gerou questionamentos na Justiça Eleitoral.
O Partido Liberal (PL), por exemplo, está atento a qualquer deslize que possa configurar propaganda antecipada, o que poderia resultar em multas contra o presidente. Embora a direção do PT reconheça a preocupação com o desgaste político, há um receio maior de que o desfile possa ser judicializado, ou que o desempenho da escola de Niterói não seja o esperado, resultando em vaias ou críticas por parte do público.

Enquanto isso, a Acadêmicos de Niterói se prepara para um espetáculo de 3100 componentes e cinco carros alegóricos, com uma apresentação que promete marcar o Carnaval de 2026 com um forte componente político. Lula, que assistirá ao desfile em um camarote da Prefeitura do Rio, ao lado do prefeito Eduardo Paes (PSD), também deve ter sua esposa, Janja, desfilando no último carro alegórico da escola.