
O trumpismo é sustentado não apenas por radicais, mas principalmente por republicanos tradicionais e por uma direita relutante que, mesmo sem entusiasmo ideológico, mantém o apoio ao presidente dos Estados Unidos, segundo a pesquisa Beyond Maga: A Profile of the Trump Coalition.
O estudo mostra que a base eleitoral de Donald Trump é formada por quatro grupos distintos — Maga radicais (sigla em inglês para o slogan “Faça a América Grande Novamente”), direita relutante, conservadores anti-woke e republicanos tradicionais — compondo uma coalizão mais ampla do que a percepção comum de um núcleo extremista.
Base heterogênea e menos homogênea do que parece
Realizado pelo centro de pesquisas More in Common com 18 mil entrevistados, o levantamento indica que o apoio ao presidente é diverso e internamente dividido. Para o diretor-executivo da organização nos Estados Unidos, Jason Mangone, a base é mais “diversa e internamente dividida do que muitos supõem”.
Apenas 38% dos eleitores se identificam como Maga, grupo mais ideológico e fiel. Enquanto esse núcleo enxerga Trump como uma liderança quase messiânica, a chamada direita relutante o vê como um gestor pragmático, contratado para resolver problemas econômicos, e os republicanos tradicionais mantêm apoio por alinhamento partidário e valores conservadores.
Mesmo diante do aumento da impopularidade e de crises recentes, a adesão ao presidente segue elevada entre seus eleitores. “Passado mais de um ano de seu segundo mandato, o apoio a Trump continua forte, especialmente entre seus eleitores mais comprometidos, mesmo que alguns, nas margens, tenham sentimentos ambíguos”, afirma Mangone.
O principal fator de coesão entre os diferentes grupos é a oposição ao movimento “woke”, visto como ameaça por 75% da base. Mesmo entre republicanos tradicionais, considerados moderados, 65% compartilham essa percepção. Para muitos, a imigração irregular também é percebida como fator de crise nacional, ideia com a qual 87% concordam.

Jovens impulsionam novo conservadorismo
A pesquisa aponta uma mudança geracional relevante: jovens apoiadores tendem a adotar visões mais tradicionais sobre gênero e religião. Entre eleitores da geração Z, 26% concordam com a ideia de que “o homem deve liderar e a mulher seguir”, percentual superior ao observado entre gerações mais antigas, como os baby boomers, onde o índice é de 10%.
“Chamamos isso de um ‘novo tradicionalismo’ emergente entre eleitores mais jovens de Trump. Estamos observando uma mudança geracional real em direção a visões mais tradicionais sobre fé e gênero”, declara Mangone.
Entre esses jovens, a religião também aparece como forma de resistência cultural: 43% consideram que ser religioso hoje é um gesto mais “rebelde” do que ser ateu.
Democracia, imigração e limites ao poder
Apesar do discurso duro do presidente, a maioria de seus eleitores afirma valorizar regras democráticas. Segundo o levantamento, 77% dizem que Trump deve obedecer à Constituição, mesmo que isso limite seus planos. Ainda assim, quase metade dos eleitores da geração Z afirma que apoiaria o presidente mesmo se ele ignorasse decisões da Suprema Corte para “consertar o país”.
O estudo também revela uma visão ambivalente sobre imigração. A simpatia por imigrantes legais entre trumpistas é semelhante à média nacional, mas cai acentuadamente quando se trata de imigrantes sem documentos. Mesmo assim, 54% se opõem à deportação de pessoas em situação irregular que vivem há anos no país e estão integradas às comunidades, e a maioria também rejeita o cancelamento do status de refugiados e beneficiários de programas humanitários.
A hipótese de Trump tentar um terceiro mandato, proibido pela Constituição americana, também divide a própria base. Apenas 38% apoiariam a iniciativa, embora o percentual chegue a 60% entre Maga radicais e a 49% entre eleitores da geração Z, caindo para 36% entre baby boomers.