O que eu teria feito diferente no desfile que homenageou Lula. Por Thiago Suman

Atualizado em 17 de fevereiro de 2026 às 19:46
Carro alegórico que homenageia Lula. Foto: reprodução

O conjunto apresentado na avenida é uma manifestação artística e, como toda expressão criativa, não se encerra em si mesma. Ele provoca leituras, desperta interpretações e convida à reflexão.

Tudo o que esteve presente no desfile da Acadêmicos de Niterói é legítimo e corresponde ao recorte concebido pela escola, por seus compositores e carnavalescos.

Não vejo, sob nenhum aspecto, configuração de campanha eleitoral antecipada. Tampouco considero que algo não pudesse estar ali, pois o direito à expressão artística é inviolável.

Diante das inúmeras possibilidades que a arte oferece, me permiti refletir, especialmente como alguém apaixonado pelo Carnaval e que convive com a arte desde a infância, na dança, no teatro, na música e no cinema. Por isso, me senti à vontade para apontar algumas mudanças que faria no enredo e na construção do espetáculo, caso estivesse à frente da criação.

Vamos aos pontos.

Entendo que houve certo excesso de fan service, com escolhas voltadas a agradar a torcida, mas que não correspondem aos momentos mais significativos da trajetória de Lula, sobretudo quando observados sob a perspectiva de Dona Lindu, fio condutor da narrativa.

Dar centralidade à figura de Bolsonaro significa elevar um antagonista muito menor diante da dimensão biográfica de Lula.

A representação de Alexandre de Moraes prendendo Bolsonaro também me pareceu inadequada, pois alimenta a narrativa da extrema direita sobre um suposto alinhamento ideológico do STF, quando o que está em jogo é o cumprimento da lei.

Minhas alterações seriam as seguintes:

1. O abre alas traria Lula nos braços do povo, saindo de São Bernardo, inspirado na fotografia icônica. Trata se de um instante incontornável de sua biografia.

2. Criaria um carro reunindo líderes mundiais como Mandela, Fidel, Merkel, o Papa, Macron e Obama, todos posicionados em planos inferiores, com Lula em evidência. A cena mostraria esses estadistas saudando o presidente brasileiro, sinalizando a dimensão histórica que ele alcançou.

Lula sendo carregado nos braços do povo. Foto: reprodução

3. Um destaque se transformaria progressivamente do retirante nordestino ao operário, depois sindicalista, candidato e, por fim, presidente. Uma síntese visual de sua ascensão.

4. O estandarte “Solte sua Janja” seria substituído por “Agora quem ronca grosso somos nós”, frase presente no cartaz histórico do líder grevista. A mensagem dialoga diretamente com o personagem e sua origem política.

5. O carro da ONU em 2003 ganharia maior ênfase. Bandeiras de vários países, referências ao BRICS e ao Mercosul, além de representações de Gilberto Gil e Kofi Annan. A trilha vibrante, com tambores ecoando no nível inferior do carro, destacaria os três protagonistas no plano superior. Outros integrantes ao estilo de Kofi Annan fariam a tamborada do carro.

6. Não incluiria a “ala das conservas”. A crítica social é legítima, porém a mensagem transmitida pode soar como ataque direto a conservadores enquanto segmento social, que é legítimo. Considerando o esforço recente de ampliação de diálogo, essa moldura não me parece estratégica. Caso houvesse contraposição política, poderia se concentrar na extrema-direita ou reforçando a tensão ideológica da luta de classes.

Dira Paes como Dona Lindu. Foto: Leo Franco

7. O trecho que cita Henfil, Zuzu Angel, Vladimir Herzog e Rubens Paiva é potente, mas amplia demais o foco. Esses nomes mereceriam um samba próprio. Dentro deste enredo, competem com a vastidão da trajetória de Lula. Optaria por concentrar a narrativa no personagem central.

8. A ala das baianas, intitulada “As Mães do Sindicato”, seria dedicada a Dona Lindu, fortalecendo sua presença como narradora simbólica da história.

9. Ampliaria a representação de Lula como defensor de grupos historicamente marginalizados que constituem a essência do Carnaval, como pobres, negros, população LGBTQIA+ e indígenas. Esses segmentos apareceriam ao lado dele, reafirmando essa conexão.

10. Reforçaria os eixos da soberania nacional com destaque para Amazônia e Petrobras. A disputa recente com Trump é episódica, ainda que relevante. A defesa da soberania é mais ampla e atravessa toda a trajetória política do presidente.

Em síntese, não se trata de apontar falhas, mas de propor outra leitura possível dentro da liberdade criativa que o Carnaval permite.

Thiago Suman
Jornalista com atuação em rádio, TV, impresso e online. É correspondente do Daily Mail, da Inglaterra, apresentador do DCMTV e professor de filosofia e sociologia, além de roteirista de cinema e compositor musical premiado em festivais no Brasil e no mundo