Mais de 80 cineastas acusam Berlinale de “silêncio institucional” sobre Gaza

Atualizado em 17 de fevereiro de 2026 às 21:22
Tilda Swinton olhando para a cãmera, de roupa amarela
A atriz Tilda Swinton – Reprodução

Mais de 80 nomes da indústria cinematográfica divulgaram nesta terça-feira (17/02) uma carta aberta criticando o que chamaram de “silêncio institucional” do Festival de Cinema de Berlim diante do genocídio em Gaza. Entre os signatários estão atores vencedores do Oscar, como o espanhol Javier Bardem e a escocesa Tilda Swinton.

O documento afirma que os artistas estão consternados com a postura do festival e desapontados com seu “envolvimento na censura de artistas que se opõem ao genocídio em curso cometido por Israel contra palestinos em Gaza”.

O texto foi articulado pelo coletivo Film Workers for Palestine. A manifestação ocorreu após declarações do presidente do júri da Berlinale, o diretor alemão Wim Wenders, que, ao ser questionado sobre a posição do governo alemão no conflito, afirmou que o cinema deveria permanecer “fora da política”.

“Temos que nos manter fora da política, porque, se fizermos filmes que sejam dedicadamente políticos, entramos no campo da política; mas nós somos o contrapeso da política”, disse Wenders na última quinta-feira. Entre os diretores que assinam a carta estão Mike Leigh, Adam McKay e Fernando Meirelles. Muitos dos signatários já exibiram obras no festival.

Swinton recebeu em 2025 o Urso de Ouro Honorário, prêmio que celebrou sua trajetória. Os autores da carta dizem “discordar veementemente” das falas de Wenders e sustentam que cinema e política são inseparáveis.

“Assim como o festival fez declarações claras no passado sobre atrocidades cometidas contra pessoas no Irã e na Ucrânia, pedimos que a Berlinale cumpra seu dever moral e declare claramente sua oposição ao genocídio de Israel”, afirma o texto.

O documento também critica “o papel central do Estado alemão em permitir” as ações de Israel e pede que o festival declare oposição “ao genocídio, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra cometidos por Israel contra os palestinos”.

Javier Bardem sério
O ator Javier Bardem – Reprodução

O Festival Internacional de Cinema de Berlim é conhecido por seu histórico de posicionamentos em temas políticos. Após as críticas, a diretora da 76ª Berlinale, Tricia Tuttle, afirmou em nota que artistas “são livres para exercer seu direito à liberdade de expressão” e que não devem “ser obrigados a se pronunciar sobre toda questão política”.

O festival publicou ainda comunicado em defesa de Wenders, mencionando “tempestade midiática” e alegando que suas palavras teriam sido retiradas de contexto. A produtora Ewa Puszczynska, integrante do júri, declarou que seria “um pouco injusto” esperar que os jurados assumissem posição direta sobre Gaza.

A escritora Arundhati Roy cancelou participação prevista no evento, afirmando estar “chocada e enojada”. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Karim Aïnouz declarou que “fazer cinema sempre foi um ato político”. A documentarista Eliza Capai também afirmou que “fazer cinema é fazer política”.

Em 2024, o prêmio de documentário da Berlinale foi concedido a “No Other Land”, sobre comunidades palestinas na Cisjordânia ocupada. Na ocasião, autoridades alemãs criticaram declarações feitas por diretores durante a cerimônia.