
Robôs humanoides dançantes dominaram o palco na segunda-feira durante a tradicional Gala do Festival da Primavera da China Media Group, a transmissão oficial mais assistida da televisão chinesa. Eles avançaram, executaram mortais para trás — aterrissando de joelhos — giraram e saltaram. Nenhum caiu.
A apresentação chamou atenção pelo nível de precisão e coordenação. Ao mesmo tempo, levantou uma pergunta inevitável: se robôs já conseguem dançar e executar movimentos de artes marciais, até onde podem ir?
Especialistas divergem. Parte deles considera que os limites técnicos ainda são significativos e que o espetáculo deve ser analisado também como instrumento de projeção política.
Desenvolvidos por diversas empresas chinesas de robótica, os humanoides realizaram acrobacias complexas, incluindo movimentos de kung fu, esquetes cômicas e coreografias sincronizadas com artistas humanos. Vídeos que circularam nas redes logo foram comparados à edição do ano anterior do Ano Novo Lunar, que também exibiu robôs dançando — mas com movimentos bem mais simples.
Segundo Kyle Chan, pesquisador da Brookings Institution especializado em desenvolvimento tecnológico chinês, Pequim utiliza essas exibições públicas para “deslumbrar audiências domésticas e internacionais com a capacidade tecnológica da China”.
“Diferentemente de modelos de IA ou equipamentos industriais, robôs humanoides são exemplos altamente visíveis da liderança tecnológica chinesa, algo que o público consegue ver diretamente em seus celulares ou televisores”, afirmou.
🤯ISSO FOI INCRÍVEL! Agora, a apresentação dos robôs Kung Fu na Gala do Festival da Primavera superou todas as expectativas!
A tradicional arte marcial chinesa encontra a tecnologia robótica mais avançada. A inovação da China está no futuro! pic.twitter.com/L2HxRYg8fd
— Isabela Shi🇨🇳🇧🇷 (@ShiIsabela) February 16, 2026
Chan destacou ainda a competição crescente entre China e Estados Unidos no setor tecnológico. “Enquanto China e EUA disputam palmo a palmo na inteligência artificial, os robôs humanoides são uma área em que a China pode afirmar estar à frente, especialmente em escala de produção.”
Georg Stieler, diretor de robótica e automação da consultoria global Stieler Technology and Marketing, também ressaltou o simbolismo da transmissão em horário nobre. Segundo ele, o que diferencia a gala chinesa de eventos similares em outros países é a ligação direta entre política industrial e espetáculo televisivo.
Comparando as apresentações deste ano com as do ano passado — quando o público viu basicamente um único padrão coreográfico, com movimentos limitados como caminhar, torcer o tronco e chutar — Stieler avaliou que um dos sinais de avanço está “na capacidade de operar grandes quantidades de humanoides quase idênticos em movimentos sincronizados, com passadas estáveis e comportamento consistente das articulações”.
Ele fez, no entanto, uma ressalva: desempenho de palco não equivale, por enquanto, a robustez industrial. Os robôs foram treinados para repetir a rotina centenas ou milhares de vezes. Não seria possível simplesmente ordenar que mudassem de direção ou executassem algo totalmente diferente.
De acordo com Stieler, as coreografias exigem pouca percepção do ambiente e baseiam-se essencialmente em aprendizado por imitação aliado a sistemas de controle de equilíbrio. Isso pouco diz sobre confiabilidade em ambientes não estruturados, requisito essencial para uso em fábricas. Além disso, o progresso na destreza manual não avança no mesmo ritmo que o da locomoção.
A apresentação reforça as ambições tecnológicas mais amplas do país. Até o fim de 2024, a China havia registrado 451.700 empresas de robótica inteligente, com capital total de 6,44 trilhões de yuans (cerca de US$ 932 bilhões), segundo dados oficiais. Projetos governamentais como o Made in China 2025 e o 14º Plano Quinquenal colocaram robótica e inteligência artificial entre as prioridades centrais de Pequim.
O banco Morgan Stanley projeta que as vendas de humanoides chineses mais que dobrarão, alcançando 28 mil unidades em 2026. Já Elon Musk afirmou que espera que seus maiores concorrentes nesse segmento sejam empresas chinesas, à medida que a Tesla direciona esforços para inteligência artificial incorporada e para seu robô humanoide Optimus. “As pessoas fora da China subestimam a China, mas a China é de outro nível”, declarou Musk no mês passado.
Para Marina Zhang, professora de tecnologia da University of Technology Sydney, uma vitrine tão visível sugere uma nova etapa no plano industrial chinês: a robótica como eixo da transição da montagem de baixo custo para a manufatura inteligente de alto valor agregado.