
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
No Brasil, há tipos de networking. Um acontece em seminários, cafés institucionais, reuniões formais com ata, pauta e transparência pública. O segundo acontece longe das câmeras, ou pelo menos longe das câmeras oficiais. Taças de Petrus, copos de Macallan, caviar servido como se fosse amendoim de boteco e celulares proibidos na porta. O resto é silêncio e memória seletiva.
Reportagem de Alexa Salomão e Joana Cunha, na Folha de S.Paulo, mostra que o Ministério Público junto ao TCU pediu investigação sobre a presença de autoridades em festas promovidas por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em Trancoso (BA).
“Esses eventos, denominados Cine Trancoso, teriam contado com a presença de altas autoridades dos Três Poderes da República, incluindo integrantes do Poder Executivo do governo anterior, membros do mercado financeiro, da política e do meio jurídico”, diz o MP.
O Brasil tem uma tradição curiosa: quando dinheiro, poder e intimidade se misturam, a fronteira entre o público e o privado vira linha pontilhada. Oficialmente, tudo é vida pessoal. Extraoficialmente, todo mundo sabe que relações são construídas ali. E relações, no mundo real, viram decisões, influências, prioridades.
“O Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas! Desde antes de ontem, reclamações por causa do som acima do permitido. Ontem foi pior”, escreveu a proprietária da casa alugada por ele ao corretor do imóvel no dia 5 de outubro de 2022. “Levou 20 putas para a casa que ele alugava com a esposa e filhos”.
Há relatos de festas luxuosas, mulheres estrangeiras trazidas de jatinho, encontros paralelos a eventos como a Semana do Brasil em Nova York e o chamado “Gilmarpalooza” em Lisboa. A isso, se soma a doação de um apartamento de quase R$ 4,4 milhões a uma jovem identificada como “sugar baby” de Vorcaro, que já havia vindo a público.
A defesa do empresário diz que há juízo moral e tentativa de difamação. É direito dela sustentar isso. Mas a pergunta incômoda não é sobre moralidade sexual. É sobre o pudor republicano.

Quando executivos de instituições públicas, políticos de diferentes partidos e autoridades frequentam ambientes patrocinados por um banqueiro que depende de decisões regulatórias, judiciais e políticas, estamos diante de vida privada ou de lobby pornográfico? De confraternização ou de investimento relacional? De amizade ou de hedge político?
O temor quanto à divulgação de imagens gravadas reforça a influência do anfitrião. Em última instância, ele conseguiu o que queria: ter autoridades na mão.
Aí a conversa deixa de ser sobre festa e passa a ser sobre captura de poder. Porque o que está em jogo não é quem bebeu o quê, nem com quem transou — sendo adulto, cada um é responsável por sua vida. É se o Brasil aceita que a promiscuidade entre capital financeiro e agentes públicos seja tratada como folclore, fofoca ou apenas “after”.
O Banco Master não virou problema por causa de festinhas, mas porque recursos públicos entram na equação e o país descobre que, por trás das planilhas, havia sacanagem com grana de investidores individuais, de aposentadorias de servidores públicos, do contribuinte.
Mais uma vez, não se trata de puritanismo. Trata-se de transparência. Em democracias maduras, quem ocupa cargo público deve evitar até a aparência de conflito de interesses. Aqui, muitas vezes, a aparência vira piada até se tornar crise.
Talvez o Brasil precise decidir se quer separar definitivamente negócios de camarotes. Ou se continuará tratando promiscuidade política como se fosse apenas mais um “job” na agenda social da elite.