
O jogo conturbado em Lisboa, marcado por versões conflitantes e à espera da apuração sobre o episódio envolvendo o argentino Gianluca Prestianni, trouxe à tona algo que não admite relativização: a tentativa de sugerir que Vinicius Jr teria “provocado” o racismo que sofre.
Essa linha de raciocínio, ecoada por José Mourinho, técnico do Benfica, não é apenas equivocada — é sintoma de um pensamento ultrapassado que insiste em deslocar a culpa do agressor para a vítima. Racismo não é reação a drible, comemoração ou palavra dita em campo. Racismo é escolha de quem ofende.
Vinicius afirmou ter sido alvo de ataque racista durante a partida. Prestianni negou e disse que houve mal-entendido. O caso será analisado pela UEFA.
Enquanto a investigação segue, um ponto permanece inalterado: nada do que um jogador faça em campo serve de justificativa para insulto racial. A responsabilidade pertence exclusivamente a quem pratica o ato.
Se Mourinho optou por insinuar que Vinicius “incita” reações, Kylian Mbappé seguiu caminho oposto. O atacante francês declarou apoio público ao companheiro e afirmou que ninguém tem o direito de determinar como ele deve celebrar seus gols. Também disse ter ouvido a ofensa repetidas vezes.
A postura de Mbappé foi direta: não há comportamento esportivo que autorize racismo.
Mourinho afirmou que “algo acontece em todo estádio” onde Vinicius joga e concordou quando questionado se o brasileiro teria incitado a torcida. Em outro momento, mencionou Eusébio para sustentar que o Benfica não seria racista.
Novamente, quando Vini Jr tem um grande jogo começam a querer desviar o foco. Não pode dançar (mesmo que outros façam), nem ao mesmo denunciar ofensa racista. Triste o individualismo no futebol, se não te favorece, foda-se a causa. José Mourinho é isso aípic.twitter.com/RZId5NCj5P
— Guilherme Lopes (@Guilopesf) February 18, 2026
O argumento é frágil. A existência de um ídolo negro na história de um clube não elimina a possibilidade de atos racistas cometidos por indivíduos. Ninguém acusou a instituição como um todo. O debate diz respeito a condutas específicas.
Ao sugerir que o comportamento de Vinicius contribui para as agressões que recebe, Mourinho revive uma narrativa antiga: a de que a vítima deveria agir de modo diferente para evitar o ataque. Essa lógica desloca o foco do agressor e normaliza o preconceito.
Após o jogo, Vinicius declarou que racistas são covardes e que contam com proteção de quem deveria puni-los. Questionou o cartão amarelo recebido por comemorar o gol e criticou o protocolo adotado na partida.
O técnico do Real Madrid, Álvaro Arbeloa, foi visto consolando o atacante após o tumulto.
O episódio reforça uma discussão que o futebol europeu ainda insiste em tratar de maneira ambígua. Não existe “provocação” capaz de explicar racismo. Quando uma figura experiente como Mourinho sugere o contrário, expõe não apenas um erro de análise, mas um atraso moral incompatível com o tempo presente.
🚨 IMAGENS EXCLUSIVAS DO MOMENTO EM QUE VINI JR. ACUSA PRESTIANNI DE RACISMO! O craque tomou amarelo e, pouco depois, acusou ao árbitro que teria sido chamado de 'macaco' pelo jogador adversário após marcar o golaço da vitória do Real Madrid.#MFM #CasaDaChampions #PósJogo pic.twitter.com/ZCmwe9RUga
— TNT Sports BR (@TNTSportsBR) February 18, 2026