Folha tenta vitimizar suspeitos de vazar dados de ministros do STF

Atualizado em 19 de fevereiro de 2026 às 8:33
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Reprodução

A Folha de S.Paulo tentou vitimizar os suspeitos de vazar dados de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) após operação da Polícia Federal que investiga acessos ilegais a informações sigilosas.

O jornal tentou entrar em contato com os investigados por telefone, familiares e visitas aos endereços, mas acabou sem resposta, após eles evitarem se manifestar.

Os quatro servidores da Receita Federal são suspeitos de consultar e divulgar dados fiscais de integrantes do Supremo e de seus parentes. Segundo o STF, “foram constatados diversos e múltiplos acessos ilícitos ao sistema da Secretaria da Receita Federal do Brasil, seguindo-se de posterior vazamento das informações sigilosas”.

Os investigados foram afastados dos cargos, tiveram passaportes cancelados e deverão prestar depoimento à Polícia Federal.

“Família religiosa e discreta”

Em um trecho da matéria, a Folha cita uma aspa de uma vizinha da servidora Ruth Machado dos Santos, um dos alvos da PF, que descreve a família da investigada como “religiosa e de conduta discreta”.

“São pessoas de família”, disse a microempresária Renata de Abreu Nascimento, 56, que mora há mais de 20 anos em frente à casa da servidora no Guarujá (SP).

A própria Ruth Machado dos Santos, técnica do seguro social desde 1994 e, atualmente, agente administrativa da Receita, não se manifestou. O marido informou que ela ainda não constituiu defesa e que não falariam sobre o assunto.

Outro alvo é o auditor fiscal Ricardo Mansano de Moraes, ligado à secretaria da Receita em Presidente Prudente (SP) e residente em São José do Rio Preto, onde foram apreendidos documentos, notebook e celular. Servidor desde 1995, ele passou, no último ano, a integrar a Equipe de Gestão do Crédito Tributário e do Direito Creditório (Eqrat), responsável pela gestão de créditos tributários.

Em regime de home office, recebe em média cerca de R$ 27 mil mensais, chegando a R$ 51,6 mil em dezembro, segundo o Portal da Transparência. Após a operação, apagou as redes sociais, e a mulher afirmou que não comentaria o caso.

Luciano Pery Santos Nascimento, técnico do seguro social lotado na Delegacia da Receita em Salvador, também é alvo. Morador do bairro Narandiba, ele não respondeu aos contatos feitos por telefone nem ao interfone do prédio. Nas redes sociais, costuma publicar mensagens motivacionais e evita expor a vida pessoal.

A operação também alcançou Luiz Antônio Martins Nunes, servidor do Serpro cedido ao Fisco, cuja defesa não foi localizada. Em nota, a empresa pública afirmou que seus sistemas são rastreáveis e permitem auditoria para identificar eventuais irregularidades.

A investigação segue sob responsabilidade da Polícia Federal para esclarecer como os dados sigilosos foram acessados e divulgados.

Ao destacar que os investigados seriam uma “família religiosa e de conduta discreta”, com direito a depoimentos de vizinhos e descrições pessoais, a Folha acabou deslocando o foco da apuração para um retrato doméstico dos suspeitos, suavizando o peso das acusações. Em vez de centrar a narrativa nos acessos ilícitos apontados pelo STF e nas medidas adotadas pela Polícia Federal, o jornal optou por humanizar os alvos da operação, em um movimento que foi lido por críticos como tentativa de protegê-los no momento mais delicado da investigação.

Superintendência da Receita Federal. Foto: Divulgação