A cautela de setores econômicos brasileiros mais afetados após o fim do tarifaço de Trump

Atualizado em 21 de fevereiro de 2026 às 11:24
Funcionários da fábrica da Frescatto, da indústria da pesca. Foto: Reprodução

Setores econômicos mais atingidos pelo tarifaço de Donald Trump comemoraram a suspensão anunciada após decisão da Suprema Corte dos EUA, mas mantêm cautela diante das incertezas sobre a retomada efetiva das exportações brasileiras, conforme informações do Globo.

O empresariado avalia que, embora a medida tenha anulado tarifas impostas com base na IEEPA — incluindo as chamadas tarifas recíprocas de 10% e a sobretaxa de 40% aplicada ao Brasil —, ainda não está claro como e quando as mudanças serão implementadas na prática.

No primeiro momento, não estava claro nem se a decisão se aplicava apenas à tarifa de 10% anunciada em abril, junto com todos os países, ou se valia também para o adicional de 40% específico sobre o Brasil. Na interpretação do governo federal, a suspensão se aplica a tudo.

Suspensão reduz impacto, mas mantém dúvidas

Na avaliação de especialistas, o cenário resultante ainda prevê custos extras. O especialista em comércio exterior Jackson Campos afirma que, após a decisão e novos anúncios de Trump, permanece um adicional global temporário de 10% sobre produtos brasileiros, além das tarifas já existentes.

“Para a maioria dos produtos, permanece a tarifa normal do item [ou seja, as taxas já em vigor antes do tarifaço], acrescida do novo adicional temporário global de 10%”, afirma. Ele lembra que aço e alumínio continuam com alíquotas de 50%, somadas aos 10% adicionais.

Ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral destaca que a aplicação prática depende de regulamentação da aduana americana. “Não é imediata a decisão da Suprema Corte. Vai haver uma norma da CBP para falar como será a suspensão”, disse Barral, observando que Trump já indicou a possibilidade de manter tarifas com base em outras normas comerciais.

A decisão judicial anulou todas as tarifas aplicadas com base na IEEPA, mas a efetiva implementação depende da publicação de normas operacionais.

O presidente dos EUA, Donald Trump, exibe tabela com tarifas recíprocas, chamada de “tarifaço”. Foto: Reprodução

Indústria comemora, mas recomenda cautela

Entre os setores industriais, a reação combina alívio e prudência. Fabricantes de máquinas e equipamentos veem possibilidade de recuperação. “Com o fim do tarifaço, nossas expectativas mudam. A gente pode pensar até num crescimento da ordem de 10% (em 2026), que foi o que nós perdemos no ano passado”, afirmou José Velloso, presidente da Abimaq, alertando para o risco de novas taxações no futuro e defendendo negociação para evitar tarifas adicionais.

A indústria da pesca também recebeu a notícia de forma positiva, já que tinha os EUA como mercado relevante. “Seria sair de 50% e morrer em 10%. Está bom”, disse Eduardo Lobo, presidente da Abipesca, lembrando que até 2024 o pescado brasileiro era isento de tarifas.

Já o setor calçadista classificou a decisão como “positiva”, mas recomendou “cautela” enquanto aguarda detalhes operacionais e nova ordem executiva americana, após estimar que a manutenção das tarifas poderia provocar queda de 15% nas exportações do ano.

Exportadores e agronegócio acompanham cenário

Outros segmentos ainda avaliam os efeitos. A indústria de madeira processada preferiu não comentar até concluir análise interna. A Embraer, líder global em jatos regionais e com os EUA como principal mercado, havia sido beneficiada por exceções, mas seguia prejudicada pela tarifa de 10% aplicada desde abril. Após a decisão, suas ações subiram mais de 1% na bolsa.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne também evitou comentar, lembrando que o setor havia sido incluído anteriormente na lista de exceções.

Entidades como Firjan e Fiesp alertam para riscos de novas sobretaxas, já que Trump citou a Seção 301 da Lei de Comércio americana, que prevê investigações sobre parceiros comerciais — e o Brasil está sob investigação desde julho de 2025.

No agronegócio, exportadores de frutas comemoraram a suspensão, destacando que produtos como a uva ainda enfrentavam tarifas elevadas. Já o setor cafeeiro avalia os desdobramentos jurídicos após o tarifaço ter interrompido fluxos entre o maior produtor mundial e o maior consumidor.

Impacto desigual e cenário incerto

Economistas já apontavam que os efeitos do tarifaço tenderiam a ser limitados para a economia brasileira como um todo, devido ao perfil das exportações nacionais, concentradas em commodities como grãos, carnes, minério de ferro e petróleo, menos dependentes do mercado americano.

Ainda assim, nichos industriais mais competitivos — como siderurgia, aeronáutica, maquinário, pesca e calçados — sofreram perdas relevantes.

Ao longo de 2025, os efeitos variaram conforme atividades e empresas: alguns setores foram isentos, outros tiveram sobretaxas retiradas no fim do ano e parte continuou pagando tarifas elevadas até a decisão judicial.

A suspensão representa alívio imediato, mas o empresariado segue atento às próximas decisões do governo dos EUA e às regras que definirão se haverá retomada consistente das exportações brasileiras nas próximas semanas.