
A transformação da casa onde Adolf Hitler nasceu, em Braunau am Inn, na Áustria, em uma delegacia de polícia reacendeu discussões sobre memória histórica e responsabilidade nacional. O imóvel, localizado próximo à fronteira com a Alemanha, passará a abrigar uma unidade policial a partir do segundo trimestre de 2026, segundo o Ministério do Interior.
O governo austríaco afirma que a medida busca “neutralizar” o local, evitando que ele se torne ponto de encontro para extremistas de direita. Em 2016, foi aprovada uma lei que permitiu ao Estado assumir o controle do prédio, então deteriorado e de propriedade privada.
Moradores demonstram opiniões divididas. Sibylle Treiblmaier, de 53 anos, disse que o prédio poderia ter sido “melhor aproveitado” e classificou a decisão como “uma faca de dois gumes”. A residência, onde Hitler nasceu em 20 de abril de 1889 e viveu por curto período, fica em rua central da cidade.
Em frente ao imóvel, há uma pedra com a inscrição: “Pela paz, liberdade e democracia. Fascismo nunca mais. Milhões de mortos nos alertam”. Operários finalizam os ajustes na fachada reformada, que custou cerca de 20 milhões de euros.

Críticos também questionam a escolha da polícia como ocupante do espaço. Ludwig Laher, do Comitê Mauthausen da Áustria, que representa vítimas do Holocausto, considera que “uma delegacia de polícia é problemática”, pois a corporação atua conforme determina o Estado vigente.
Outras propostas defendiam a criação de um centro dedicado à promoção da paz ou de um espaço educativo que contextualizasse historicamente o local. Para a comerciante Jasmin Stadler, seria importante inserir o imóvel em um “contexto histórico” mais amplo.
O debate ocorre em momento de avanço do Partido da Liberdade (FPÖ), de extrema direita, fundado por ex-integrantes do regime nazista. Em 2024, a legenda obteve a maioria dos votos nas eleições legislativas, mas não conseguiu formar governo.
A Áustria foi anexada pela Alemanha nazista em 1938 e, durante o regime, cerca de 65 mil judeus austríacos foram assassinados e aproximadamente 130 mil foram forçados ao exílio. A discussão sobre como lidar com esse passado retorna de forma recorrente no país, especialmente diante do cenário político atual.