Eu também quero ajuda da OAB. Por Moisés Mendes

Atualizado em 25 de fevereiro de 2026 às 14:32
Prédio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Foto: Divulgação

A Ordem dos Advogados do Brasil pediu ao Supremo que o interminável inquérito das fake news tenha um fim. O inquérito foi aberto em 14 de março de 2019.

É um pedido que deve ser apoiado, mas até por ali. O inquérito começou logo depois da instalação do governo fascista de Bolsonaro, para investigar o que seria definido depois como gabinete do ódio, com a disseminação de mensagens em massa e os chamados atos antidemocráticos.

No começo, cercou Carlos Bolsonaro, Abraham Weintraub, Bia Kicis, Sara Winter, o véio da Havan, Daniel Silveira, Allan dos Santos, Carla Zambelli. Depois, cercou meio mundo. Ninguém se lembra mais de Sara Winter.

O inquérito é um saco sem fundo, porque tudo que envolvia o golpe e quase todos os rolos provocados pela família Bolsonaro foram parar dentro dessa investigação. Tem que ser encerrado? Tem que ser concluído, desde que os investigados não escapem de novo.

Mas a OAB defende o fim do inquérito com uma batida de porta porque envolve figuras da extrema direita. A OAB está advogando para os advogados do fascismo.

Porque no Brasil todos os inquéritos e os processos sem fim envolvem milhares de pessoas comuns. E desses a OAB não quer saber.

O autoproclamado véio da Havan, que alguns conhecem como Luciano Hang, está no inquérito do fim do mundo das fake news desde o começo (e em mais duas investigações sobre planos golpistas e crimes da pandemia) e se beneficia de procrastinações da Justiça em processos sem fim.

Ele acusa, abre processos e a Justiça fecha as gavetas, em primeira e/ou em segunda instâncias, e acontece com muitos dos réus cercados pelo véio o que se passa com ativistas de extrema direita, mesmo os que agora se dizem neutros, no inquérito das fake news.

O bolsonarista Luciano Hang. Foto: Divulgação

Por que eu falo disso de novo? Porque a maioria prefere ficar calada, com medo do véio e da Justiça catarinense. Muitos por covardia mesmo. Eu sou réu em processos que não andam. Fui cercado pelo véio há cinco anos. Enquanto isso, ele faz banquete com desembargadores que julgam os processos.

E a OAB faz o quê em situações semelhantes? Não faz nada, porque eu e os mais de 50 jornalistas e outros profissionais cercados pelo véio da Havan, por críticas à postura do sujeito, não temos expressão política e não pertencemos a organizações fascistas e nem à grande mídia.

Por que processos que envolvem a poderosa Folha de S.Paulo e celebridades, todos com questões envolvendo o véio da Havan, têm desfecho em Santa Catarina? Favoráveis à Folha e às celebridades.

Eu comentei falas e fez críticas quase fofas a esse indivíduo, perto do que a Folha e as celebridades fizeram. Mas eu não tenho o poder que eles têm.

A OAB, que não enxerga os jornalistas cercados, se manifesta em voz alta só em defesa dos políticos que disseminavam mentiras e articulavam manobras golpistas desde a eleição de Bolsonaro. Porque todos são figuras do bolsonarismo.

A OAB pode dizer que sempre foi assim e que processos se arrastam por toda parte. Muitas vezes até a prescrição, que é a forma mais covarde de lavar as mãos de quem deveria julgar.

Se é assim, por que a preocupação com o inquérito que investiga fascistas, alguns já condenados por todo tipo de crime enquadrado como ação golpista?

A OAB quer salvar a pele de gente que o inquérito aparentemente imobilizou. Mas não liga para réus de fato imobilizados em processos abertos por poderosos que hoje se consideram vítimas no inquérito das fake news.

A OAB deveria se preocupar mais com vítimas comuns da paralisia (muitas vezes deliberada) da Justiça e menos com poderosos que continuam tramando contra a democracia e as instituições. Mas aí seria pedir que essa OAB seja outra coisa.

(Uma observação importante. Esses processos são da área cível, que geralmente têm tramitação mais rápida do que na área criminal. Mas eu enfrentei um processo do mesmo sujeito na área criminal em Porto Alegre e fui absolvido em menos de dois anos, a partir de parecer desfavorável ao acusador pelo Ministério Público. O acusador se entregou e desistiu de recorrer aqui, mas levou o mesmo caso para a área cível em Santa Catarina. E aí não preciso acrescentar mais nada. Também venci um processo do sujeito em São Paulo. E espero desfecho para dois processos em Santa Catarina, sendo que um já teve decisão favorável ao acusador em primeiras instância, porque escrevi que ele deveria abrir uma loja em Cabul…)

Publicado no Blog do Moisés Mendes

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/