
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, foi a terceira a votar, nesta quarta-feira, no julgamento dos cinco acusados de planejar o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. No início da manifestação, afirmou que o Brasil permanece em um “canto sem encanto” ao analisar o caso.
Ao tratar do impacto pessoal da ação penal, a ministra relatou o peso emocional da análise do processo. “Este processo, como já comentei com alguns, tem me feito muito mal. Espiritualmente, psicologicamente e até fisicamente, nessas últimas semanas, em que leio e releio os documentos e assisto aos vídeos sobre tudo o que se passou”, declarou.
Para quem tem a minha fé, Mater Dolorosa não é uma imagem; é o mais profundo e humano símbolo da dor imposta pelo cruel deslimite que uma pessoa pode impor a outra. Aprendi que se pode arrancar a alma de uma pessoa sem lhe rasgar as carnes. O assassinato de um filho e de uma filha é aqui bem a amostragem disso. O cordão umbilical que se desata no parto aqui é estilhaçado por um sicário de ódio desmedido, ganância insaciável e descaso humano sem limites”.
A ministra fez referência ao contexto institucional e questionou a repetição de crimes políticos no país. “Do gabinete do ódio, que tratamos no ano passado, ao escritório do crime, e a crimes quase sem escritório, mas disseminados. Eu me pergunto: quantas Marielles o Brasil permitirá que sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de Justiça nesta pátria de tantas indignidades? Quantos Andersons vamos ver chorar? Quantas Luyaras e Arthurs vão ficar órfãos para que o Brasil resolva que isso não pode continuar e que o Estado de Direito não é retórica?”, afirmou.
Durante o voto, Cármen Lúcia abordou o machismo e o racismo que, segundo ela, atravessam o cao. “Tinha-se também a questão de ser uma mulher, uma mulher negra que começa a se projetar. E uma das falas muito projetadas em TV aberta da Marielle, ela dizendo: “Sou uma mulher negra e não é porque sou mulher que não vão ter que ouvir minha voz”. […] Há um lado mais perverso: nós, mulheres, […] somos mais ponto de referência do que sujeito de direito. […] Matar uma de nós é muito mais fácil”, disse.
Em seguida, dirigiu-se à mãe da vereadora. “E dona Marinete, não acho que é só sua filha. Estou falando como minha mãe também poderia dizer. É muito mais fácil me matar do que matar os outros três aqui. Porque ‘não vai acontecer nada’. O que eles não sabiam é que aconteceria”, declarou.
A ministra também classificou a atuação das milícias como um “feudalismo criminoso” e afirmou que esses grupos atentam contra a soberania nacional. “Estabelecemos um feudalismo criminoso no Brasil. Esses crimes de milícia são praticados contra a soberania nacional […]. As milícias não prestam serviços; vendem, comprando o que seria a ‘omertà’. Paga-se pelo gatonet, pelo gás. Não é pela segurança, mas pela insegurança que eles mesmos estabelecem, para que não se volte contra eles”, afirmou.
Para Cármen Lúcia, a corrupção é o núcleo da ação penal. “O ponto central, preocupante e amargo, é o que se apresenta como semente e fruto do maior mal que comete os fatos narrados nesta ação: a corrupção. Os interesses pessoais alucinam as pessoas, iludem-nas com impressões de poder que as fazem tomar-se como gigantes ou semideuses. Não vejo risco maior para a convivência democrática nas relações sociais e estatais do que a desonestidade e a corrupção”, declarou.
Ao concluir, ressaltou que o julgamento não elimina o sofrimento das famílias. “A Justiça humana não é capaz de apaziguar essa dor. Este julgamento é apenas o testemunho tímido e quase constrangido, da minha parte, da resposta que o direito pode dar diante da dor pungente e atroz que tem aqui a face da mãe, da filha, do filho, das viúvas, da trabalhadora que se afirma ter sobrevivido, quando todo mundo tem direito à vida, e não à sobrevida”, afirmou.
JULGAMENTO DO CASO MARIELLE | 'Quantas Marielles o Brasil vai deixar serem assassinadas?', diz Cármen Lúcia em seu voto.
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— Jornal O Globo (@JornalOGlobo) February 25, 2026