
A Prefeitura de São Paulo, sob comando de Ricardo Nunes (MDB), bancou, em janeiro, um salário de R$ 76 mil a Bárbara Regina Correia de Moraes para atuar como coordenadora dos Centros de Informações Turísticas (CIT).
O pagamento foi feito por meio da Agência Quarter, empresa que pertence aos irmãos dela, Marcelo e Victor Correia de Moraes, ainda que esteja em nome de uma mulher que vivia de aluguel em um cortiço, conforme informações do colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles.
O valor é o dobro do salário de R$ 38 mil do prefeito Ricardo Nunes e supera o rendimento do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que ganha cerca de R$ 36 mil.
Bárbara foi contratada em 17 de dezembro para substituir a própria mãe e recebeu, já no mês seguinte, um bônus de R$ 57 mil sobre o salário fixo de R$ 19 mil, elevando seus ganhos a R$ 76,8 mil. A prefeitura paga R$ 29 mil pelo cargo.
Segundo a Quarter, o pagamento trata-se de um bônus “condicionado ao cumprimento de metas e desempenho do exercício anterior” — embora ela tenha trabalhado apenas 11 dias no projeto no ano anterior — e o benefício não está previsto no contrato com a Secretaria Municipal de Turismo.

A remuneração supera a de servidores e políticos e é maior do que a soma dos salários dos técnicos de turismo que atuam nos CITs. Documentos indicam que a prefeitura paga R$ 9 mil por técnico, enquanto a agência repassa cerca de R$ 2,8 mil aos trabalhadores.
Na folha de ponto, há registros idênticos de horários de entrada, almoço e saída em todos os dias trabalhados, o que pode indicar manipulação.

Irregularidades em contrato de R$ 36 milhões
Foram identificadas inconsistências na execução do contrato de R$ 36 milhões entre a secretaria e a Quarter, incluindo cobrança por equipamentos inexistentes, como televisões de 85 polegadas e mapas táteis que não foram instalados em todos os centros — o mapa só existe no CIT da Paulista, e as TVs vistas têm 40 polegadas.
A empresa alegou que “determinados espaços não comportavam” os equipamentos e que dependia do envio de materiais pela secretaria, mas o contrato nunca foi redimensionado, e a prefeitura continuou pagando cerca de R$ 200 anuais pelo aluguel dos itens inexistentes.
A secretaria também paga R$ 785 por cada ponto de internet, valor considerado muito acima do mercado, e renovou o contrato mantendo cláusulas não cumpridas.
No processo de renovação, a pesquisa de mercado incluiu empresas ligadas aos próprios donos da Quarter ou parceiras comerciais, como a VM Produções, de Victor Correia de Moraes, a Oleiro, ligada à coordenadora dos CITs, e a LGL Promoções, que apresentou orçamentos elevados.
Outros pagamentos e suspeitas
Além de Bárbara, a prefeitura também pagou R$ 42 mil a Ingrid Sanches de Almeida após bonificação de R$ 30 mil. Até o fim de 2024, ela trabalhava na Secretaria de Turismo como coordenadora de Administração e Finanças e autorizava pagamentos à Quarter, mas pediu exoneração para atuar na própria agência, com salário-base menor.
A apuração indica que ela exerce, na prática, a função de contadora da empresa, sendo remunerada com recursos públicos.
O contrato com a Quarter teve origem em pregão realizado em 2023 e foi renovado no início de 2025 e novamente em janeiro deste ano. No papel, a empresa pertence a uma ex-sócia do secretário adjunto de Turismo, Rodolfo Marinho, indicado político do vereador Gilberto Nascimento Jr. (PL), cujo salário é inferior ao pago à coordenadora.
