Anotações expõem balcão de negócios no entorno de Flávio Bolsonaro

Atualizado em 26 de fevereiro de 2026 às 9:26
Flávio Bolsonaro e Marcos Pollon. Foto: reprodução

O senador Flávio Bolsonaro, lançado pelo pai como presidenciável do Partido Liberal, recorreu à Justiça contra contas no X que o ligam à milícia.

É muito cinismo. Do inferno, Adriano da Nóbrega dá uma piscadela de olho.

Mas o fato de ser miliciano é apenas um dos problemas de Flávio.

Ele deixou à vista um conjunto de anotações após reunião da cúpula do partido em Brasília. O que parecia descuido revelou algo mais grave: um retrato cru de negociações políticas. Tudo precificado.

Anotações de Flávio Bolsonaro expõem “valor” de Pollon para não se candidatar ao Senado. Foto: reprodução

Entre os registros manuscritos, o nome do vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (PSD), aparece ligado a um símbolo de dinheiro com uma seta. Ramuth é citado em investigação sobre lavagem de dinheiro em Andorra e nega irregularidades. O governador Tarcísio de Freitas afirma que pretende manter o atual vice, mas Flávio anotou também o nome do presidente da Assembleia paulista, André do Prado, seguido de “Vice?”. A troca de peças no tabuleiro parece avaliada sob critérios que não foram explicados ao eleitor.

A anotação mais explosiva envolve o deputado federal Marcos Pollon (PL-MS): “Pollon (pediu 15 mi para não ser candidato)”. Se o registro traduz o que está escrito, trata-se de algo direto: 15 milhões de reais para abrir mão de uma candidatura. Em qualquer cenário, isso tem nome — corrupção. É a conversão de mandato e disputa eleitoral em mercadoria.

Pollon reagiu, disse ser alvo de campanha para destruir sua reputação. Flávio Bolsonaro culpou a imprensa e afirmou que apenas registrou comentários que ouviu, para alertar o colega. A explicação não elimina o teor do que foi anotado. Quando cifras aparecem associadas a decisões eleitorais, o problema não é semântico.

Outra linha reforça o mesmo padrão: “Mulher Rodolpho (pediu 5 mi)”. A referência seria a Gianni Nogueira, casada com o deputado Rodolfo Nogueira (PL-MS), supostamente vinculada a uma pretensão de 5 milhões de reais para entrar na disputa ao Senado. O deputado negou qualquer pedido financeiro e afirmou que ela tem apoio de Jair Bolsonaro. Ainda assim, o que ficou no papel foi a associação entre candidatura e valor em dinheiro.

O pano de fundo amplia a gravidade. O ex-presidente Jair Bolsonaro, preso e condenado a mais de 27 anos por crimes contra a Constituição, articula da cadeia uma estratégia para eleger 41 senadores. O objetivo declarado é pressionar o Supremo Tribunal Federal com pedidos de impeachment contra ministros que participaram de seu julgamento. Trata-se de um projeto de poder voltado a confrontar o Judiciário.

Quando anotações expõem valores atribuídos à desistência ou lançamento de candidaturas, o debate deixa de ser interno e passa a ser público. A política não pode funcionar como feira, onde apoios são tabelados em milhões. Se há pedido de dinheiro para não concorrer, é corrupção. Se há oferta, também é corrupção. Se tudo não passa de boato, o próprio ambiente que produz esse tipo de registro já indica degradação.

Não se trata de falha de comunicação. Trata-se de indício de um método. E método que transforma eleição em balcão precisa ser tratado pelo que é: corrupção eleitoral.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.