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Fim do 6×1: governo Lula teme que Motta se aproprie da pauta e prejudique trabalhadores

Hugo Motta, presidente da Câmara. Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

O avanço da proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6×1 passou a ser visto pelo governo Lula (PT) como uma disputa política pelo controle da narrativa e do conteúdo da medida. A decisão do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de assumir a pauta por meio de uma PEC é interpretada no Planalto como uma tentativa de se apropriar de uma proposta popular e remodelá-la conforme interesses do Congresso e do empresariado, podendo esvaziar pontos centrais defendidos pelo Executivo.

A mudança de estratégia altera profundamente o equilíbrio de poder sobre o projeto. Enquanto o governo planejava enviar um projeto de lei, que permitiria veto presidencial a trechos considerados prejudiciais aos trabalhadores, a PEC patrocinada por Motta elimina essa possibilidade.

Assim, o Congresso poderá aprovar uma versão que reduza a jornada, mas flexibilize direitos, como descanso semanal garantido ou manutenção integral dos salários, criando um modelo que preserve interesses empresariais e ainda assim seja apresentado como cumprimento da promessa de acabar com a escala 6×1.

Nos bastidores, segundo a Folha, governistas avaliam que Motta pode capitalizar politicamente a medida ao associar seu nome a uma reforma trabalhista de grande apelo popular, especialmente em ano pré-eleitoral.

Ao controlar a tramitação e definir o relator e o calendário de votação, ele ganha margem para negociar mudanças com bancadas de centro e direita e, ao mesmo tempo, enfraquecer o protagonismo do Planalto na pauta social. A leitura é que o presidente da Câmara tenta transformar uma bandeira do governo em uma conquista do Legislativo.

Manifestação pelo fim da escala 6×1. Foto: reprodução

A condução da proposta sob influência de partidos mais alinhados ao setor empresarial também amplia o receio de descaracterização. Integrantes do PT temem que o texto final permita compensações desfavoráveis aos trabalhadores, como jornadas mais flexíveis ou redução indireta de renda.

Empresários pressionam para que a votação ocorra apenas após as eleições, estratégia que pode facilitar ajustes no conteúdo longe da pressão popular.

“Antes do Carnaval estava acertado que muito provavelmente viria o projeto com urgência regimental, era quase dada essa história. Agora já não temos mais tanta certeza de se esse projeto vem”, disse a deputada Erika Hilton, ao admitir a incerteza sobre qual versão prevalecerá. A declaração expõe a perda de controle do Executivo sobre a pauta e reforça a percepção de que a condução do tema passou definitivamente para as mãos de Motta.

Auxiliares de Lula discutem alternativas para evitar que a proposta seja desfigurada, mas reconhecem que a decisão final dependerá da capacidade de negociação com a Câmara.

Caso a PEC avance nos termos atuais, o governo poderá ver uma de suas principais bandeiras sociais transformada em um projeto com assinatura política do Congresso e conteúdo distante da ideia original de garantir mais descanso sem redução salarial.