
O senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPMI do INSS e coordenador da votação desta quinta-feira (27) na comissão que aprovou a quebra dos sigilos fiscal e bancário de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, teve como seu maior doador de campanha na última eleição o ruralista Celso Mânica, condenado por manter 2 mil trabalhadores em situação análoga à escravidão em suas fazendas no norte de Minas Gerais e sul da Bahia.
Os camponeses viviam sob custódia do fazendeiro, dormindo amontoados em um alojamento cuja lotação máxima era de 200 pessoas, homens e mulheres dormindo juntos. Eram dadas aos trabalhadores três “refeições por dia, sendo a primeira apenas uma xícara de café”. O almoço era servido às 10h e o jantar, às 16h. Das 16h às 10h, os 2 mil trabalhadores não ingeriam qualquer alimento sólido.
Em 2007, o doador de Viana foi condenado pelo TST (Tribunal Superior do Trabalho) a pagar uma indenização de R$ 300 mil (R$ 1,1 milhão, em valores atuais), por, conforme consta no acórdão condenatório, “aviltar, humilhar e rebaixar a situação do operário a mero fator de produção, sem respeito a seus valores humanos e à sua dignidade”, além de fraudar o sistema de pagamentos previdenciários, sonegando os depósitos mensais devidos ao INSS e aos 2 mil camponeses escravizados.

“(Os irmãos Mânica) contrataram 2 mil pessoas e as colocaram alojadas em um espaço que só cabiam 200”, denunciou a procuradora do Trabalho Adriana Augusta de Moura Sousa, à época. Além dos três irmãos, também foram denunciados dois “gatos”, como são chamados os aliciadores de mão de obra.
Segundo a denúncia do Ministério Público do Trabalho (MPT), os trabalhadores eram contratados em cidades do norte de Minas e da Bahia e ficavam alojados sem privacidade, tinham direito a apenas café, sem sequer um pedaço de pão pelas manhãs, e ficavam sem nenhuma refeição sólida entre 16h, quando o jantar era servido, até as 10h do dia seguinte, horário do almoço.
Celso Mânica é irmão de Antério e Norberto Mânica, condenados por tramarem a emboscada e o assassinato de quatro servidores do Ministério do Trabalho, em 2004.
Esta não foi a primeira vez que o presidente da CPMI do INSS recebeu doação de um empresário ligado à área de atuação do parlamentar.
Em 2018, Viana foi eleito com apoio de outro empresário com negócios em Minas Gerais, Luis Fernando Franceschini da Rosa, do ramo da mineração, que doou R$ 100 mil para a campanha do político na época. A contribuição não o impediu de assumir no Senado a relatoria da CPI de Brumadinho, que investigou o rompimento da barragem que deixou cerca de 290 mortos.
Ao ser questionado se a doação eleitoral poderia comprometer sua atuação na CPI, Viana disse que “é comum” políticos se posicionarem a favor de interesses momentâneos, mas que isso “nunca” aconteceu com ele.
Viana foi eleito senador em 2018, superando a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) na disputa. Ele é jornalista e se destacou como apresentador do jornal regional da TV Record e de um programa da Rádio Itatiaia, a maior de Minas Gerais. Com um estilo conservador e policialesco, ele era considerado uma versão mineira do apresentador José Luiz Datena, da TV Bandeirantes.
Eleito pelo PHS, o senador mudou para o PSD antes da posse no Senado. Passou para o MDB por apenas três meses até se filiar ao PL, partido de Bolsonaro, com o objetivo de ser o candidato do presidente nas eleições de Minas Gerais em 2022. Derrotado nas urnas e escanteado por Bolsonaro, que montou palanque com Romeu Zema (Novo), Viana se mudou para seu atual partido, o Podemos, seguindo na oposição no Congresso Nacional.
Me deparei com o senador Carlos Viana e perguntei sobre essa acusação de fraude por parte dos governistas.
“Segui o regimento. Está quebrado o sigilo e mantido o resultado” https://t.co/3c5Io8n9XH pic.twitter.com/HmYO5u8It7
— Sam Pancher (@SamPancher) February 26, 2026