Sakamoto: Fim da 6×1? Líder do Republicanos diz que pobre não sabe usar tempo livre

Atualizado em 27 de fevereiro de 2026 às 8:16
Manchete da Folha sobre o Líder do Republicanos. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O deputado federal Marcos Pereira, ao atacar o fim da escala 6×1 com declarações preconceituosas a trabalhadores pobres, acabou dando um presentão para a campanha que busca aumentar o descanso semanal. Pois, agora, o centrão vai ter que mostrar que não pensa como o presidente do Republicanos. De quebra, jogou um pepino no colo de seu correligionário, o governador Tarcísio de Freitas, que será cobrado a respeito da posição de seu líder.

Em entrevista a Raphael Di Cunto e Laura Scofield, da Folha de S.Paulo, Pereira, preocupado com o que chamou de “competitividade do setor produtivo”, afirmou que “ócio demais faz mal”, disse que gente que parou de trabalhar “morreu rápido, ficou doente”, que com o dia de descanso a mais o trabalhador “vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar” e questionou “qual o lazer de um pobre numa comunidade?” ou “num sertão lá do Nordeste?”.

E diante do questionamento dos repórteres de que ficar com a família é uma forma de lazer, ele retrucou: “Será que eles ficam?”. E por que não ficariam? “É problema pessoal de cada um. Eu acho que a sociedade brasileira, infelizmente, não é assim.” Logo ele, um bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, que diz colocar a defesa da família como elemento central da existência humana.

O deputado tentou criticar a campanha pelo fim da escala 6×1 sob a ótica da Teologia da Prosperidade. Isso está claro quando ele responde que “quanto mais trabalho, mais prosperidade”, ao ser perguntado sobre a validade da demanda popular por mais tempo de lazer e menos de trabalho.

Para muitas denominações evangélicas neopentecostais, o sucesso financeiro é interpretado como um sinal visível da bênção de Deus. Nesse sentido, o trabalho duro não é apenas uma necessidade de sobrevivência, mas uma ferramenta para a manifestação da glória divina. E o esforço do trabalho é visto também como uma forma de guerra espiritual contra o mal.

Ao mesmo tempo, em vez de procurar um emprego estável e com benefícios, fiéis de parte das denominações são encorajados a ter “visão de reino”, abrindo o próprio negócio. O trabalho de sol a sol seria, neste caso, o motor que transforma uma “revelação” em realidade material. Sem contar que, através do acúmulo de riqueza, o sucesso permite financiar a expansão do evangelho através do dízimo.

Mas o que é escolha espiritual no púlpito torna-se imposição quando defendida por um parlamentar no Congresso.

Congresso Nacional. Foto: Jonas Pereira/Agência Senado

Pereira errou na mão, ficou parecendo mais um caso de político que quer tutelar trabalhadores para evitar o vício. Tal como o patrão que retém o salário do cortador de cana, prometendo entregar só no final da safra, afirmando que, caso contrário, ele gastaria tudo em cachaça.

“Mas a população vai fazer lazer onde? O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Pode ser o contrário. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?”, disse.

O deputado deveria visitar comunidades pobres das periferias de São Paulo e do Rio e do sertão do Nordeste para entender a diversidade de cultura e lazer que floresce mesmo em meio à adversidade econômica.

É interessante como ele atropela o livre-arbítrio, um conceito citado em muitos livros da Bíblia mesmo que a expressão exata não apareça por lá. Do ponto de vista cristão, é o poder que Deus concedeu aos indivíduos para tomarmos as próprias decisões e enfrentarmos, sem paternalismo, as consequências delas.

A ideia está em Romanos, capítulo 2, versículos 6 a 8: “Deus ‘retribuirá a cada um conforme o seu procedimento’. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça”.

Mas também em Neemias, capítulo 9, versículos 16 e 17: “Mas os nossos antepassados tornaram-se arrogantes e obstinados, e não obedeceram aos teus mandamentos. Eles se recusaram a ouvir-te e esqueceram-se dos milagres que realizaste entre eles. Tornaram-se obstinados e, na sua rebeldia, escolheram um líder a fim de voltarem à sua escravidão”. Ah, líderes para nos levar de volta à escravidão…

Homem segurando carteira de trabalho e documentos. Foto: Reprodução

Não cabe ao poder civil decidir qual é o caminho da virtude para cada trabalhador. Por mais que, na avaliação de lideranças como Pereira, o trabalho árduo seja o caminho para fiel tomar posse das promessas bíblicas de abundância, essa escolha não cabe a um político, mas a cada trabalhador.

Quem quer empreender e ter seu próprio negócio, pode optar por uma escala 7×0, pois estará trabalhando para si (empreendedores de fato, não trabalhadores precarizados claro). Mas quem trabalha para uma empresa precisa que seus representantes no parlamento garantam regras do jogo mais justas.

Fora do campo da retórica moral, resta a questão concreta: como equilibrar trabalho, dignidade e vida?

Reduzir a discussão sobre a jornada de trabalho a uma caricatura, como se descanso fosse sinônimo de vício e pobreza fosse incapacidade de escolha, é ignorar não apenas a complexidade da sociedade brasileira, mas também a própria tradição cristã que muitos desses líderes afirmam defender.

Ao sugerir que trabalhadores pobres não saberiam o que fazer com mais um dia livre, o deputado não apenas subestima milhões de brasileiros, mas reforça um preconceito antigo: o de que direitos sociais seriam perigosos quando chegam à base da pirâmide. É uma lógica que naturaliza a desigualdade e transforma proteção trabalhista em erosão de caráter.

Se há algo que a história mostra é que avanços civilizatórios (da jornada de oito horas ao descanso semanal remunerado) nunca vieram sem resistência dos que temiam perda de produtividade. E, no entanto, vieram. E ficaram. Porque sociedades que equilibram trabalho e vida tendem a ser mais saudáveis, produtivas e estáveis.

A pergunta não é “o que o pobre fará com mais tempo livre?”, mas por que alguém deveria trabalhar seis dias seguidos para provar seu valor moral. Prosperidade não pode ser confundida com exaustão. Fé não pode servir de argumento para restringir direitos. E livre-arbítrio não combina com tutela.

O debate sobre o fim da escala 6×1 precisa avançar com dados, respeito e escuta, não com estigmas. Trabalhadores não precisam de guardiões que decidam como devem viver seus dias de descanso. Precisam de representantes que confiem neles o suficiente para garantir condições dignas de trabalho e, sobretudo, de vida.