Trump não tem plano realista para o futuro do Irã

Atualizado em 1 de março de 2026 às 22:39
Presidente Donald Trump em pronunciamento anunciando o ataque ao Irã no sábado (28). Reprodução

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não apresentou um plano consistente para o que acontecerá no Irã após a ofensiva militar conduzida por Washington e Tel Aviv. A avaliação é do colunista Gideon Rachman, do Financial Times, que compara a atual operação contra Teerã às invasões do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003. Segundo ele, mesmo com todos os erros, aquelas guerras ao menos contaram com planejamento detalhado, incluindo o envio de tropas terrestres para derrubar governos e tentar reorganizar o país depois.

No caso iraniano, Trump parece ter descartado completamente a possibilidade de colocar soldados americanos em solo estrangeiro, influenciado pelas perdas humanas e pelo fracasso das tentativas de “construção de nação” nas guerras anteriores. Isso, no entanto, o deixa comprometido com uma estratégia sem precedentes claros: promover uma mudança de regime apenas por meio de bombardeios aéreos. A morte do aiatolá Ali Khamenei e de outros líderes militares e políticos no primeiro dia da ofensiva abalou o regime, mas não responde à pergunta central: o que vem depois.

Trump pediu que a Guarda Revolucionária Islâmica depusesse as armas e sugeriu que o povo iraniano “assumisse o governo”. As declarações, porém, não vieram acompanhadas de qualquer detalhamento prático. Mesmo que integrantes das forças iranianas decidissem abandonar o regime, não há uma autoridade alternativa estruturada para assumir o controle. Da mesma forma, manifestantes que já vinham protestando contra o governo podem se perguntar como, na prática, tomariam o poder após uma campanha de bombardeios.

A expectativa implícita parece ser a de que a eliminação da cúpula iraniana e a destruição de parte da infraestrutura militar levariam a uma transição espontânea para um novo sistema político, sem necessidade de envolvimento direto dos EUA. O problema é que há poucos elementos que sustentem essa hipótese. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também apelou ao povo iraniano para derrubar o governo, mas o cálculo estratégico israelense é diferente: Israel vê a República Islâmica como seu principal inimigo e tende a se concentrar na neutralização da ameaça imediata, deixando as consequências políticas de longo prazo para outros atores lidarem.

Para os países do Golfo e para os próprios Estados Unidos, o cenário é mais complexo. Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein e Arábia Saudita, que se apresentam como polos estáveis e seguros para capital e investimentos, já foram atingidos ou ameaçados por mísseis iranianos. Caso o conflito se prolongue, a imagem de estabilidade da região pode ser profundamente abalada. Existe o risco de que a violência, antes concentrada em países como Síria, Líbia e Líbano, se espalhe também pelos enclaves considerados prósperos e seguros.

Internamente, Trump também enfrenta riscos políticos. Diferentemente do cenário após os atentados de 11 de setembro, quando houve amplo apoio popular às guerras no Afeganistão e no Iraque, o respaldo à ofensiva contra o Irã é baixo. Segundo pesquisa do YouGov, apenas 27% dos americanos apoiavam o uso da força militar contra o país. Democratas e parte dos republicanos ligados ao movimento Maga criticaram duramente a decisão. Para o analista, enquanto o governo parece ignorar as lições do passado, a opinião pública americana demonstra ter aprendido com os custos humanos e políticos das guerras anteriores.