
Os ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã tiveram como um dos principais alvos a residência e o gabinete do líder supremo, Ali Khamenei.
A aposta aparente seria a de que sua eliminação desestabilizaria o regime, repetindo cenários vistos na Líbia após a queda de Muammar al-Qaddafi ou na Síria depois da saída de Bashar al-Assad. Em ambos os casos, o poder estava fortemente concentrado em uma única figura.
No Irã, porém, o desenho institucional segue outra lógica. Embora o cargo de líder supremo concentre autoridade religiosa, comando das Forças Armadas e poder de arbitragem política, o posto integra uma rede de órgãos criada para garantir continuidade mesmo diante de crises graves.
Após a Revolução de 1979, liderada por Ruhollah Khomeini, a nova Constituição estabeleceu mecanismos para evitar vácuos de poder. O Conselho dos Guardiões foi encarregado de assegurar que as leis respeitem os princípios islâmicos.
A Assembleia dos Peritos passou a escolher e supervisionar o líder supremo. O Conselho de Discernimento foi criado para solucionar impasses institucionais. Já a Guarda Revolucionária Islâmica e os serviços de inteligência assumiram a tarefa de proteger o sistema contra ameaças externas e turbulências internas.
A experiência histórica pesa nesse arranjo. A queda da dinastia Qajar, o colapso safávida após a tomada de Isfahan, o período de instabilidade que se seguiu à morte de Nader Shah e as guerras civis após a morte de Karim Khan Zand reforçaram, para a elite iraniana, a percepção de que a ausência de liderança clara pode fragmentar o país.
Os primeiros anos da República Islâmica colocaram essa estrutura à prova. Após o impeachment do presidente Abolhassan Banisadr, tanto Mohammad Ali Rajai quanto Mohammad Javad Bahonar foram eleitos e assassinados em curto intervalo.

Ainda assim, em menos de dois meses, Khamenei assumiu a Presidência, sinalizando capacidade de reposição rápida em momentos críticos. Em 1989, com a morte de Khomeini, Khamenei foi escolhido líder supremo por decisão institucional, apesar de não reunir o mesmo peso religioso do antecessor.
Casos recentes reforçam essa leitura. Quando o presidente Ebrahim Raisi morreu em um acidente de helicóptero em 2024, os dispositivos constitucionais foram acionados de imediato. A transição ocorreu sem ruptura institucional, com convocação rápida de eleições.
O artigo 111 da Constituição prevê que, na ausência ou incapacidade do líder supremo, o poder passe provisoriamente a um conselho formado pelo presidente, pelo chefe do Judiciário e por um clérigo indicado pelo Conselho de Discernimento. A norma não estabelece prazo rígido para a escolha do sucessor e permite negociações prolongadas, inclusive em cenários de guerra.
Embora a Assembleia dos Peritos tenha o voto formal, decisões tendem a ser articuladas antes, com influência significativa da Guarda Revolucionária, que avalia riscos à segurança e à coesão interna. Além da dimensão militar, a legitimidade religiosa também pesa: qualquer sucessor precisa obter ao menos aceitação tácita de setores relevantes do clero, especialmente em Qom.
A forma como ocorre a morte de um líder também influencia o processo. Em caso de morte durante conflito, a narrativa de martírio pode restringir o leque de candidatos àqueles vistos como firmes na defesa do país.
O momento mais delicado costuma vir após a escolha do novo líder. A nova chefia precisa demonstrar autoridade interna e estabilidade externa. Em períodos de transição, medidas interpretadas como agressivas por observadores estrangeiros podem servir para reafirmar controle dentro do país.
O Irã costuma ser descrito como dependente de figuras individuais. No entanto, a arquitetura política construída após 1979 busca assegurar que o sistema sobreviva a qualquer liderança específica. Resta saber como reagirá diante de novos choques. A experiência acumulada indica que uma eventual sucessão em Teerã tende a ser tratada menos como ponto final e mais como teste da solidez institucional.