Governo reavalia estratégia diplomática para encontro Lula-Trump após ataques ao Irã

Atualizado em 2 de março de 2026 às 19:33
Donald Trump e Lula. Foto: reprodução

O governo brasileiro acompanha “com atenção” os desdobramentos da crise no Irã após os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel no fim de semana, que resultaram na morte do aiatolá Ali Khamenei. Integrantes do Itamaraty avaliam que a transição de poder em Teerã “não será nada fácil” e que o conflito pode gerar impactos globais mais profundos do que outras guerras em curso.

Segundo o Uol, a escalada também deixa indefinida a agenda de um possível encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump. Os bombardeios embaralharam o cenário internacional e ampliaram a tensão no Oriente Médio.

Em tom de repreensão a ações militares, o Ministério das Relações Exteriores condenou as incursões em território iraniano, que já deixaram mais de 160 estudantes mortos, mas, ao menos por ora, não pretende adotar medidas diretas contra o governo estadunidense.

Diplomatas brasileiros não demonstram confiança na expectativa de Trump de que o conflito seja breve. Na avaliação de interlocutores estrangeiros, o Irã, segundo país mais populoso do Oriente Médio e supostamente detentor de arsenal atômico, enfrenta questões “mais profundas” e possui maior potencial de desdobramentos regionais.

Além do aspecto geopolítico, o governo monitora possíveis reflexos econômicos. Em um primeiro momento, há expectativa de aumento das exportações brasileiras de petróleo. No entanto, a extensão da guerra e seu eventual alargamento para outros países podem desencadear uma recessão global, pressionando a inflação internacional e, por consequência, a brasileira.

Restos de escombros após um ataque conjunto israelense-estadunidense em Teerã, Irã. Foto: Amir Kholousi/AP

O sinal de alerta já foi acionado na área econômica. O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, admitiu que a evolução do conflito pode interferir na política monetária. “O que pode acontecer lá na frente é o momento de parada dos cortes acontecer antes se o repasse a preços ficar mais intenso”, disse, em evento nesta segunda-feira. Atualmente, a taxa básica de juros, a Selic, está em 15% ao ano.

No campo diplomático, o cenário também traz incertezas. A reunião entre Lula e Trump na Casa Branca nunca teve data oficial, mas era especulada para março, com expectativa de tratar da suspensão total de taxações extras, especialmente após decisão de ilegalidade pela Suprema Corte dos EUA. Agora, a viagem permanece sem definição.

Para diplomatas brasileiros, ficou evidente que o Brasil não está entre as prioridades de Trump neste momento. O presidente estadunidense tem concentrado esforços em questões internas, como imigração — tema que gerou protestos no início do ano — e nos conflitos militares em que os Estados Unidos estão envolvidos.

Trump não descartou a possibilidade de incursões terrestres caso a resistência iraniana continue. “Avisamos para não tentarem reconstruir as instalações em uma nova localização, mas eles ignoraram as ordens e continuaram a fazer as armas nucleares”, afirmou em coletiva de imprensa ao comentar a operação militar.

Em resposta aos ataques de sábado, o Irã retaliou alvos militares dos Estados Unidos em diferentes países do Oriente Médio. Até o momento, foram atingidas instalações no Catar, no Kuwait, nos Emirados Árabes Unidos, no Bahrein, na Jordânia e no norte do Iraque.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.