
Ao apoiarem o ataque americano ao Irã, as lideranças europeias revelam um profundo desconhecimento do caráter do povo iraniano e da tradição histórica que orienta sua conduta quando a soberania nacional é ameaçada.
A covardia, o cinismo, a vassalagem e o duplo padrão moral desses dirigentes geram constrangimento para o mundo inteiro. Mas sobretudo para o que chamamos de “mundo democrático”.
É revelador que essa catástrofe geopolítica aconteça justamente no momento em que governantes do Norte Global passaram a usar, com ainda mais frequência, expressões como “civilização ocidental” e “valores compartilhados do Ocidente”. A guerra já se converteu em fator de brutal instabilidade para a economia mundial, especialmente para a Europa, onde o preço do gás disparou mais de 50% somente nesta segunda-feira, após o Catar suspender a produção de gás natural liquefeito (GNL) depois dos ataques na região. Soma-se a isso o desastre humanitário previsível, cujas consequências se estenderão às famílias trabalhadoras do mundo inteiro.
Agora fica mais claro quais são esses valores da “civilização ocidental”: todos unidos no culto à violência e à morte, na violação do Direito Internacional, na anarquia global e na guerra. Basta lembrar o discurso de Marco Rubio na Conferência de Munique, enaltecendo os impérios europeus do passado e criticando o continente por ter “permitido” que fossem desmantelados por insurreições anticoloniais.
A crítica é estranha, já que a eclosão dessas insurreições e revoluções nacionalistas ocorreu exatamente porque a Europa não queria largar o osso imperial. Para completar, esse alinhamento vergonhoso das lideranças europeias à nova onda de crimes de guerra dos Estados Unidos e de Israel acontece semanas depois de Washington ameaçar militarmente a própria Europa, com toda aquela história de “conquistar” a Groenlândia. Os discursos que saem da boca dos governantes europeus soam como balbucios medrosos: ilógicos, desconectados da realidade.
A Alta Representante da UE, Kaja Kallas, declara que “os ataques do Irã e a violação da soberania de vários países na região são inexcusáveis”, quando quem tem sua independência violada é o próprio Irã. O país foi atacado pelos Estados Unidos e por Israel quando ainda sinalizava disposição para negociar. Ursula von der Leyen fala em “esperança renovada para o povo do Irã”, mas, nos primeiros dias de guerra, bombardeios americanos atingiram uma escola infantil no país, com relatos de mais de 100 crianças mortas, e, segundo o governo iraniano, chegaram a alcançar nove hospitais. Que tipo de esperança pode nascer da morte de tantos inocentes, como ocorre, aliás, em todas as guerras?
O chanceler alemão Friedrich Merz foi além: afirmou que enquadramentos baseados no direito internacional “terão pouco efeito” e que não é o momento de “dar lições” aos parceiros. No mesmo pronunciamento, chamou o regime iraniano de “regime terrorista” e declarou que o governo alemão compartilha do “alívio de muitos iranianos” com o suposto fim do regime. Quando se trata da Ucrânia, as normas internacionais viram princípio sagrado. Quando se trata do Irã, viram detalhe. E isso cobra o seu preço.
🚨 SECRETARY RUBIO: The hardest hits are yet to come. The next phase will be even more punishing on Iran than it is right now. The world will be a safer place when we are done with Operation Epic Fury. pic.twitter.com/AVQYtmUX21
— Department of State (@StateDept) March 2, 2026
A desmoralização do discurso europeu contra a Rússia é total, em vários aspectos. Moscou ganha munição retórica para alegar, com mais convicção do que Washington consegue, que a operação na Ucrânia teria sido exigida por sua segurança nacional, argumento que as agressões americanas mais uma vez reforçam. Se os Estados Unidos podem sequestrar impunemente o presidente de outro país, como fizeram com Maduro na Venezuela, e depois atacar o Irã contando ainda com apoio europeu, por que a Rússia confiaria que a expansão da OTAN até suas fronteiras não representaria uma ameaça? Para a “civilização ocidental”, apenas a segurança dos Estados Unidos e de Israel importa.
O continente europeu se alinha obedientemente a Washington depois de meses sofrendo insultos, ameaças e agressões tarifárias da própria potência americana. Os Estados Unidos provocaram e costuraram a guerra na Ucrânia, forçando a Europa a cortar drasticamente o fornecimento de gás e petróleo russos.
Essa ruptura foi catastrófica. Na Europa, a decisão de substituir o gás russo, vendido a preços competitivos e entregue por gasodutos, em volumes elevados e constantes, pelo gás norte-americano transportado por navios, com custos de liquefação e frete muito mais altos, elevou significativamente o preço final da energia. E o golpe simbólico foi ainda maior porque investigações e reportagens passaram a atribuir a explosão de um dos gasodutos Nord Stream a uma operação com participação ucraniana, em contexto de apoio americano. O Nord Stream era um empreendimento construído com dinheiro alemão e russo para levar gás barato e constante ao continente.
O dano econômico à Europa aparece em várias frentes. Petróleo e gás são essenciais para o transporte, e a Europa, diferentemente da China, que está eletrificando rapidamente sua frota, ainda tem um percentual pequeno de veículos eletrificados. São essenciais também para a indústria: uma das razões do declínio da manufatura alemã, sendo a Alemanha ainda o “motor econômico” do continente, tem sido exatamente a ruptura com a Rússia e a consequente redução do suprimento de gás russo. E são essenciais para a sobrevivência: grande parte da Europa está em áreas altamente vulneráveis ao frio e depende vitalmente de sistemas de aquecimento movidos a gás durante longos períodos do ano.
A Europa não pode mais comprar petróleo russo e, agora, terá dificuldade crescente para comprar do Oriente Médio, à medida que a guerra se espalha por toda a região. Enquanto o continente se autoasfixia, a China não rompeu relações com Teerã e não faz parte do coro ocidental: mantém canais diplomáticos e comerciais abertos, garantindo acesso privilegiado ao petróleo iraniano. O Oriente Médio é também um mercado importante para produtos europeus; com a crise que virá, as exportações europeias para a região tendem a despencar.

Segundo o economista e analista geopolítico Jeffrey Sachs, poderíamos afirmar que se trata do início da Terceira Guerra Mundial. Porque afeta o planeta inteiro. A ofensiva contra o Irã segue-se ao sequestro do presidente Maduro na Venezuela, numa tentativa de controlar a principal reserva de petróleo do continente americano. Agora, com a guerra ao Irã, Washington busca controlar as reservas do Oriente Médio. O projeto americano é claro: recuperar sua hegemonia global por meio da violência militar.
A resposta de Pequim veio rápida. Wang Yi ligou diretamente para o chanceler iraniano Seyed Abbas Araghchi, declarando apoio à soberania, à segurança e à integridade territorial do Irã, e exigindo que Washington e Israel cessem imediatamente as operações militares. O gesto vai além da diplomacia protocolar: sinaliza que a China continuará sustentando economicamente o Irã. Mais um indício de que a guerra pode durar muito mais do que a Casa Branca gostaria.
O conflito consumirá recursos financeiros e militares dos Estados Unidos, asfixiará financeiramente a Europa e reduzirá ainda mais a aprovação tanto de Trump quanto de todas as lideranças que legitimaram essa guerra. Se a Europa se posiciona como cobeligerante, está pedindo para ser alvo. Apoiar essa guerra é um suicídio europeu.
Enquanto isso, nem toda a Europa se submete. O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez condenou os ataques como violação da ordem jurídica internacional, proibiu o uso das bases espanholas de Rota e Morón para operações ofensivas e forçou a retirada de 15 aeronaves americanas do território espanhol. “É possível ser contra um regime odiado e, ao mesmo tempo, ser contra uma intervenção militar injustificada e perigosa, fora do direito internacional”, declarou Sánchez. Destacou-se como uma das raríssimas vozes europeias a não se ajoelhar para Donald Trump.
Se Sánchez é exceção entre chefes de Estado, é preciso olhar além dos palácios de governo: há setores significativos da opinião pública europeia cansados de uma vassalagem tão nociva aos interesses econômicos da Europa e à estabilidade e segurança do mundo. A ex-eurodeputada irlandesa Clare Daly capturou esse sentimento: “É vergonhoso e perigoso. O grau de cumplicidade da UE é, em si, uma violação da lei. Essas ‘lideranças’ estão auxiliando um ato de agressão e são responsáveis por isso. Estão acelerando nossa queda rumo a um mundo muito mais violento e inseguro. Jamais serão perdoadas, e é improvável que a UE se recupere do dano que estão causando a ela.” São vozes ainda abafadas nos corredores do poder, mas que provavelmente refletem o que a maioria da população europeia sente.
Ao tomar o lado do agressor, em contraste com grande parte da opinião pública mundial, o continente se expõe a represálias. O Irã não iniciou essa guerra. Foi atacado e retaliou, como qualquer nação faria.
A definição clássica de terrorismo é o uso da violência contra civis com objetivo político. Se bombardeios contra hospitais, escolas e áreas residenciais são empregados para promover mudança de regime, estamos diante de um ato que se encaixa nessa definição. A Europa está, portanto, apoiando um ato de terrorismo de Estado. Pior que o terrorismo convencional porque visa destruir Estados e aniquilar populações inteiras. E praticado pelo país que possui o maior arsenal militar do mundo.

Os chefes de governo europeus justificam seu apoio à guerra em nome do povo iraniano e de valores democráticos. Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, diz que “o povo iraniano merece o direito de determinar seu próprio futuro”. O mesmo Starmer que autorizou o uso de bases britânicas para ataques ao Irã. Como a morte de mais de 100 meninas estudantes iranianas poderia refletir esse direito? Essas meninas mortas ou mutiladas, com certeza, já não têm futuro algum.
Nas mesmas declarações em que invocam “valores democráticos”, os europeus apoiam a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, entre outras monarquias absolutistas que oferecem muito menos direitos políticos a seus cidadãos do que o Irã. A hipocrisia é absoluta.
Qual é o sentido de falar em democracia quando se tenta impor, pela força e pelo assassinato político, a vontade de um país sobre outro? A leitura ocidental sobre o Irã é contraditória e seletiva: só se enxergam as manifestações contra o regime. Há mobilizações massivas em defesa do governo, e o Ocidente simplesmente finge que não vê. O resultado dessa guerra será a unidade do povo iraniano em torno da defesa do país. Essa é uma lição que o Ocidente insiste em não aprender.
Os europeus se fingem de burros, ou esquecem, que a Revolução Iraniana decorreu justamente do golpe de Estado que americanos e ingleses deram contra a democracia iraniana. Em 19 de agosto de 1953, a CIA e o MI6 orquestraram a derrubada do primeiro-ministro democraticamente eleito Mohammad Mosaddegh, que havia nacionalizado a indústria do petróleo do país. O golpe, conhecido como Operação Ajax, restaurou o poder do xá Mohammad Reza Pahlavi, que governou como ditador por 26 anos, até ser deposto pela Revolução de 1979.
No calor daquela revolução, o poeta iraniano Hamid Sabzevari escreveu: “América, América / a vergonha do teu nome mancha o mundo. / Cada gota de sangue que cai da nossa terra / testemunha contra ti.”
A ação americana no Irã, convém lembrar, não é propriamente novidade. A história registra dezenas de operações semelhantes, conduzidas por serviços de inteligência americanos e europeus, na promoção de golpes de Estado e mudanças de regime, sempre com o objetivo de instalar governos simpáticos ao Ocidente. A esmagadora maioria dessas iniciativas produziu instabilidade, morte de civis e, invariavelmente, regimes mais autoritários do que os que existiam antes. O que deveria servir de lição.
Publicado originalmente em O Cafezinho