
Ali Larijani, por décadas visto como um dos rostos mais pragmáticos do establishment iraniano, assumiu um discurso de confronto direto após os bombardeios conduzidos por Israel e Estados Unidos que mataram o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, e o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Pakpour. Secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, o político de 67 anos agora é quem define estratégia de Teerã na maior crise do país desde 1979.
Conhecido por seu perfil intelectual, autor de livros sobre o filósofo alemão Immanuel Kant e ex-negociador nuclear com o Ocidente, Larijani mudou o tom já no domingo (1°), 24 horas após os ataques aéreos. Em mensagem divulgada na televisão estatal e nas redes sociais, declarou: “A América e o regime sionista [Israel] incendiaram o coração da nação iraniana”.
Em seguida, prometeu retaliação: “Nós incendiaremos os seus corações. Faremos os criminosos sionistas e os americanos sem vergonha se arrependerem de suas ações”.
Ele reforçou a ameaça ao afirmar que “os bravos soldados e a grande nação do Irã darão uma lição inesquecível aos opressores internacionais infernais”. Larijani também acusou o presidente Donald Trump de ter caído em uma “armadilha israelense”, indicando que vê a escalada como resultado de manobras para inviabilizar a via diplomática.
Com a morte de Khamenei, o Irã passou a ser administrado por um conselho de transição composto por três membros, e Larijani deve exercer papel decisivo na condução da política de segurança. A responsabilidade inclui coordenar a resposta militar enquanto o conflito com Israel e forças estadunidenses se intensifica.

Quem é Larijani
Nascido em 3 de junho de 1958, em Najaf, no Iraque, em uma família influente de Amol, Larijani integra uma dinastia descrita pela revista Time, em 2009, como os “Kennedys do Irã”.
Seu pai, Mirza Hashem Amoli, foi um destacado estudioso religioso. Irmãos de Larijani ocuparam cargos estratégicos no Judiciário e na Assembleia dos Peritos, órgão responsável por supervisionar e escolher o líder supremo.
Apesar das raízes conservadoras, construiu trajetória acadêmica também no campo secular. Formou-se em Matemática e Ciência da Computação pela Sharif University of Technology em 1979 e obteve mestrado e doutorado em filosofia ocidental pela Universidade de Teerã, com tese sobre Kant.
Na política, ingressou na Guarda Revolucionária nos anos 1980 e depois ocupou cargos de destaque, como ministro da Cultura no governo de Akbar Hashemi Rafsanjani e chefe da emissora estatal IRIB entre 1994 e 2004. De 2008 a 2020, presidiu o Parlamento iraniano por três mandatos consecutivos e teve papel relevante na aprovação do acordo nuclear de 2015, o Plano de Ação Conjunto Abrangente (JCPOA).
Larijani já foi secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional em 2005 e negociador-chefe do programa nuclear. Renunciou em 2007 após divergências com Mahmoud Ahmadinejad. Tentou disputar a Presidência em 2021 e 2024, mas foi desqualificado pelo Conselho dos Guardiões, decisão que classificou como “não transparente”.
Recolocado no cargo de secretário do Conselho de Segurança em agosto de 2025 pelo presidente Masoud Pezeshkian, Larijani adotou postura mais rígida. Em outubro, cancelou um acordo de cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica, alegando que os relatórios da entidade eram “não mais eficazes”.
Antes da atual escalada, mantinha canais indiretos de diálogo com Washington, mediados por Omã. Em entrevista anterior à Al Jazeera, afirmou “recorrer à negociação é um caminho racional”. Agora, porém, declarou que o Irã “não negociará” com os Estados Unidos.
Ao garantir que a sucessão seguirá a Constituição, também alertou que matar líderes não desestabilizará o país. “Não pretendemos atacar países da região”, afirmou, “mas estamos mirando qualquer base utilizada pelos Estados Unidos”. Em meio à guerra, prometeu resposta contra Israel e forças estadunidenses com “uma força que eles nunca experimentaram antes”.