
A Secretaria de Esportes do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) aprovou em ritmo acelerado prestações de contas da Confederação Brasileira de Karatê Interestilos (CBKI), entidade que recebeu R$ 18 milhões em emendas parlamentares estaduais entre 2023 e 2025. A análise dos documentos aponta indícios de sobrepreço estimados em cerca de R$ 1,7 milhão na contratação de fornecedores. A confederação nega irregularidades e afirma ter realizado pesquisa de preços.
De acordo com reportagem da Folha em dezembro, deputados da Assembleia Legislativa de São Paulo destinaram recursos à CBKI ao longo da atual legislatura. Após a aplicação do dinheiro, cabe à secretaria responsável examinar a prestação de contas, que inclui notas fiscais, detalhamento do uso da verba e relatório das atividades executadas.
A reportagem analisou o processamento de 17 emendas direcionadas à CBKI na pasta de Esportes, com base em documentos do sistema SP Sem Papel obtidos via Lei de Acesso à Informação. Dois servidores encarregados da checagem, Helder Burle e Daniela Beletati, emitiram pareceres técnicos poucas horas após o recebimento integral dos documentos, que somavam dezenas ou até centenas de páginas.
Em um dos casos, no dia 18 de agosto de 2025, às 9h59, o Grupo Tomada de Contas (GTC) recebeu a prestação referente a uma emenda do deputado Gil Diniz (PL). Às 14h18, os dois servidores já haviam analisado e aprovado o documento de cerca de 70 páginas. No mesmo dia, outra prestação, vinculada ao deputado André Bueno (PL), com aproximadamente 60 páginas, foi encaminhada às 11h16 e liberada às 15h12.

A análise do GTC é etapa essencial para concluir o processamento das emendas e permitir o repasse de novos recursos à entidade beneficiária. O setor também é responsável por cobrar providências em caso de “atos ilegais ou antieconômicos que resultem em danos ao erário”.
A reportagem identificou ainda que a servidora Sueli Maraschin, que atuou diretamente no processamento das emendas da CBKI até meados do ano passado, mantém relação próxima com o diretor da confederação, Osvaldo Messias de Oliveira, e com sua filha, Monica Oliveira.
Nas redes sociais, há registros de interações públicas entre eles, incluindo comentário de Osvaldo chamando Sueli de “Rainha, grande mulher e amiga”.
Apesar dessa proximidade, Sueli integrou a Comissão de Monitoramento e Avaliação, responsável por verificar o cumprimento das atividades pela CBKI.
Em 2022, ela também passou a compor a Comissão de Seleção, que julga chamamentos públicos para firmar parcerias com a secretaria. Após pressão do então secretário-executivo José Ribeiro Lemos Junior, foi remanejada para o setor de Recursos Humanos. No início de 2026, Lemos Junior foi exonerado a pedido da secretária Coronel Helena (Republicanos).
Em nota, a pasta afirmou que as prestações de conta “são analisadas por servidores públicos no exercício regular de suas atribuições, observados os princípios da legalidade, impessoalidade e moralidade”.
Acrescentou ainda que “as denúncias apontadas pela reportagem são alvo de análise” e que, se confirmadas irregularidades, “medidas administrativas e legais serão adotadas, com a devida responsabilização dos envolvidos”.

Entre os parlamentares que destinaram recursos à CBKI estão Rodrigo Moraes (PL), Adriana Borgo (Agir), Gil Diniz (PL), André Bueno (PL), Danilo Campetti (Republicanos), Felipe Franco (União Brasil) e Rui Alves (Republicanos). Todos afirmaram não ter conhecimento de irregularidades. Para 2026, cinco deputados já direcionaram R$ 5,75 milhões em emendas impositivas à entidade.
Segundo os planos de trabalho apresentados, os recursos foram usados para promover competições e oferecer aulas de artes marciais. Em um único fim de semana no ginásio Mauro Pinheiro, no Ibirapuera, a entidade pode gastar até R$ 1,5 milhão para viabilizar um torneio.
A CBKI não é a única organização de artes marciais beneficiada com valores elevados. Em 2025, também receberam recursos a Confederação Brasileira de Artes Marciais Chinesas, a Liga Valeparaibana de Artes Marciais e a Federação Paulista de Karatê, ampliando o debate sobre o uso de emendas parlamentares no setor esportivo paulista.