ONU diz não haver provas de programa militar ligado a armas no Irã

Atualizado em 4 de março de 2026 às 0:25
Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Foto: Helmut Fohringer/AFP

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, afirmou nesta terça-feira (3) que inspetores da agência não encontraram provas de um programa coordenado do Irã para produzir armas nucleares. A declaração foi feita em entrevista à emissora americana NBC. Segundo o chefe do organismo vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU), as inspeções não identificaram “elementos de um programa sistemático e estruturado para fabricar armas nucleares”.

Ao mesmo tempo, Grossi confirmou que o Irã realizou enriquecimento de urânio a 60% de pureza. O nível é superior ao utilizado em programas civis de geração de energia e está próximo dos 90% geralmente associados ao material necessário para armas nucleares. O diretor da AIEA afirmou que os inspetores não puderam concluir que o país pretende construir uma bomba nuclear.

Durante a entrevista, Grossi comentou o volume de material produzido nas instalações iranianas. “As centrífugas giravam constantemente e produziam cada vez mais desse material”, disse. Ele acrescentou que a quantidade acumulada poderia, em termos teóricos, permitir a produção de mais de dez ogivas nucleares. Em seguida, afirmou: “Mas eles as têm? Não”.

Vista aérea da Usina Nuclear de Natanz, no Irã. Reprodução

A AIEA também informou que instalações associadas à central de enriquecimento de urânio de Natanz sofreram danos após ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel. A análise foi feita a partir de imagens de satélite. Segundo a agência, os impactos atingiram estruturas de acesso à instalação, sem indicação de consequências radiológicas.

Localizada a cerca de 200 quilômetros a sudeste de Teerã, Natanz é uma das principais unidades do programa nuclear iraniano. Parte significativa da estrutura de enriquecimento fica em áreas subterrâneas, projetadas para proteção contra ataques aéreos.

A tensão internacional em torno do programa nuclear iraniano aumentou após o enfraquecimento do acordo firmado em 2015, conhecido como Plano de Ação Conjunto Global. O pacto estabelecia limites ao enriquecimento de urânio em troca do alívio de sanções internacionais.

Após a saída unilateral dos Estados Unidos do acordo durante o primeiro mandato de Donald Trump, o Irã passou a ampliar gradualmente seus níveis de enriquecimento de urânio. O país também reduziu o nível de cooperação com inspetores internacionais.

Antes de ataques realizados em junho por Estados Unidos e Israel, estimativas da AIEA indicavam que o Irã possuía cerca de 440 quilos de urânio enriquecido a 60% armazenados na instalação de Natanz. A quantidade foi mencionada em avaliações anteriores da agência.

No sábado (28), forças dos Estados Unidos e de Israel realizaram um ataque conjunto contra o Irã. A ação resultou na morte de comandantes militares, autoridades políticas e do líder supremo do país, Khamenei. Após a ofensiva, autoridades iranianas anunciaram bombardeios contra bases americanas no Oriente Médio.

De acordo com a Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano, pelo menos 787 pessoas morreram no Irã durante a campanha militar conduzida por Estados Unidos e Israel. Registros divulgados também apontam dez mortos em Israel, 52 no Líbano, quatro no Iraque, nove no Kuwait, três nos Emirados Árabes Unidos e uma morte no Bahrein.