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“Ele disse que é Deus”: a irritação de Vorcaro com dono do BTG após orientação do BC

André Esteves, CEO do BTG Pactual. Foto: Bloomberg

Mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro indicam um embate empresarial com André Esteves, sócio-sênior e chairman do BTG Pactual, em meio à crise que atingiu o Banco Master. Os diálogos, trocados com sua então namorada, a influenciadora Martha Graeff, foram analisados no âmbito das investigações que apuram supostos crimes contra o sistema financeiro.

Nos registros, aos quais a BBC News Brasil teve acesso, Vorcaro relata tensão crescente com o banqueiro do BTG e sugere que Esteves teria tentado assumir o controle do Master. Em uma das conversas, o empresário afirma que o rival pressionava para que ele desistisse de negociações com o Banco de Brasília (BRB).

“André disse que era o maior banqueiro do mundo. E ele era Deus que apareceu na nossa vida/Que tinhamos que agradecer a Deus a proposta dele/E esquecer o BRB”, disse Vorcaro à sua namorada em abril de 2025.

As mensagens também indicam que Vorcaro acreditava estar sendo alvo de pressões no mercado financeiro. Em novembro de 2024, ele relatou à namorada um suposto ataque midiático relacionado à disputa empresarial. “Tô resolvendo um ataque de mídia que o André Esteves fez agora aqui, amor, desculpe”.

Dias depois, o banqueiro voltou a mencionar dificuldades nas negociações envolvendo o Master. “Nossa, tô tomando um aperto gigante aqui de mercado”, escreveu. Na sequência, afirmou: “Esteves me deu uma espremida pra ele ficar com o banco”. Em outra mensagem, concluiu: “Virei alvo”.

Os diálogos também mostram um episódio em que os dois se encontraram em um evento. Vorcaro relatou o desconforto de estar ao lado do empresário do BTG. “Amor, me colocaram do lado do André Esteves no evento. Aí vem um […] e fica pedindo pra tirar foto. Eu e André esquivando”.

O dono do Master, Daniel Vorcaro, falando em microfone, sério
O dono do Master, Daniel Vorcaro – Reprodução

Em outro momento, o dono do Banco Master afirma ter sido orientado pelo Banco Central a procurar o BTG Pactual. Não está claro a quem ele se refere ao mencionar o órgão regulador. “Fui la porque [o] Banco Central pediu, porque ele é ardiloso”, disse. Em seguida, acrescentou: “Entra na mente dos caras do Bacen [Banco Central]. Mas turma nossa tá pegando pesado demais. Essa semana fui massacrado”.

O BTG Pactual afirmou, em nota enviada à BBC News Brasil, que nunca teve interesse em adquirir o Banco Master. “Nunca houve interesse na aquisição do Banco Master. Nossa atuação limitou-se à aquisição estratégica de ativos não problemáticos, visando prover liquidez à instituição em janelas pontuais de mercado”.

A Polícia Federal também investiga suspeitas de que servidores do Banco Central teriam atuado de forma irregular como consultores de Vorcaro durante a crise da instituição.

Dois funcionários de carreira do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, foram alvo de medidas judiciais determinadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Ambos foram afastados das funções e passaram a usar tornozeleira eletrônica.

Vorcaro foi preso novamente na quarta-feira (5), durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. A investigação também apura a atuação de um grupo que teria monitorado e ameaçado adversários do banqueiro.